Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

Descartado, Mantega quis deixar o governo

Demissão antecipada na campanha eleitoral quase fez o ministro abandonar o cargo

Débora Bergamasco, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 21h00

BRASÍLIA - No dia 4 de setembro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, agora porta-voz de medidas duras e impopulares na economia, ficou a milímetros de abandonar a cadeira que ocupa há mais de oito anos.

Chocado e sentindo-se apunhalado, Mantega soube pela imprensa que estaria dispensado do cargo em um eventual segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

Sem ter recebido nem sequer um telefonema de Dilma, Mantega procurou auxiliares próximos da presidente para entender os motivos do ocorrido, os porquês da decisão no auge da difícil campanha eleitoral. Informado dos detalhes, o ministro decidiu que passaria o fim de semana em São Paulo, onde tem casa, e não voltaria mais a Brasília. “Pra mim, chega”, confidenciou.

A resolução inflamada do ministro instalou a pior crise da campanha eleitoral de Dilma e a “turma do deixa-disso” correu para demovê-lo da saída iminente. Houve atuação especial do ex-presidente Lula, mentor do plano de entregar a cabeça de Mantega ao “mercado” na tentativa de atenuar o mau humor dos agentes econômicos em plena corrida eleitoral.

Muitas conversas e afagos depois, Mantega não só aceitou relevar a indelicadeza de Dilma, como reencarnou o espírito fiel e profissional de executor das ordens presidenciais para assumir sua última missão no comando da Fazenda. Sob orientação presidencial, virou porta-voz das medidas econômicas, topando desdizer parte do discurso eleitoral da candidata Dilma. Tudo a fim de “limpar” o terreno para seu sucessor, ainda não anunciado, poder administrar uma casa mais arrumada.

No Palácio do Planalto, é dado como certo que, diferentemente do que vem afirmando, Mantega não permanecerá no cargo até 31 de dezembro.

Assim que Dilma anunciar todos os nomes da nova equipe econômica, o ministro deixará a Esplanada. Por isso, ele corre contra o relógio para encerrar sua tarefa derradeira.

Nos bastidores do mercado financeiro, fala-se que o papel de Mantega é dar embocadura a um novo discurso do qual ele não será o executor.

O aumento de 3% no preço da gasolina foi a primeira medida do ajuste costurado pelo ministro. A avaliação foi positiva por ter causado menos chiadeira na população do que esperava o Planalto. Oposicionistas e parte do mercado, porém, continuaram a reclamar que o reajuste foi “insuficiente” para aliviar o caixa da Petrobrás.

Extra. Depois de Dilma ter sido reeleita, Mantega passou a espichar seu expediente até por volta das 22 horas, somando 12, às vezes 13 horas, de trabalho. Seu esforço passou pelo projeto enviado na semana passada ao Congresso para alterar a meta de superávit primário e, assim, evitar que um déficit das contas públicas represente o descumprimento da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

A medida, apesar de não ser rechaçada por boa parte dos brasileiros por ser difícil de compreender, causou ainda mais abalos na pouca confiança dos agentes econômicos na equipe chefiada pelo ministro demissionário. Mesmo ciente da repercussão negativa no mercado, área para onde ele pode ir quando deixar o cargo, Mantega, mais uma vez, defendeu com convicção a medida exigida pela Presidência.

Assim que voltar ao Brasil após o encontro do G-20, na Austrália, Mantega terá novamente de dedicar tempo ao urgente projeto de mudança das regras do abono salarial, do seguro-desemprego e da concessão de pensões por morte, fontes de despesa de quase 4% do PIB do País.

Em mais um esforço para tentar elevar receitas e reduzir despesas, é possível que sobre também para Mantega anunciar a eventual volta da Cide, imposto que incide sobre combustíveis, hoje com alíquota zero. No pós-eleição, Mantega passou ainda a defender a necessidade de diminuir os subsídios dos bancos públicos para gerar negócios privados, ideia combatida pela campanha eleitoral petista.

Demissão pública. Embora o ministro Guido Mantega viesse dando sinais de que, por motivos pessoais, não gostaria de integrar um eventual governo petista a partir de 2015, o anúncio-surpresa de sua demissão três meses antes do fim do mandato foi decidido na véspera pela presidente, no dia do debate eleitoral do SBT.

Dilma saiu do estúdio da televisão de Silvio Santos convicta de que, se nada fosse feito rapidamente, a adversária Marina Silva (PSB) seria eleita no mês seguinte. E reuniu-se na mesma noite com Lula no hotel Unique, em São Paulo, onde estava hospedada. Na mesa do jantar, Lula a convenceu a oferecer a “cabeça” de Mantega ao mercado.

No dia seguinte, foi o que ela fez. Sem avisar Mantega, seu fiel executor de tarefas, soltou no meio de um discurso em Minas Gerais: “Novo governo e, necessariamente, atualização das políticas e das equipes”. A especulação sobre uma possível mudança da equipe econômica se espalhou como fogo no canavial.

No outro dia, em Fortaleza, questionada especificamente se era uma referência ao seu ministro da Fazenda, Dilma deixou ainda mais claro: “É governo novo, equipe nova. Não tenha dúvida disso”, e declarou que não revelaria nome do substituto porque “dá azar”, já que ainda não estava reeleita.

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