Reprodução/Facebook
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Descida turbulenta: novos problemas revelados na Petrobrás

Antes orgulho nacional, estatal afunda em buraco tão fundo quanto seus poços oceânicos; emails da ex-executiva da petroleira Venina Velosa indicariam que ela vinha, há anos, alertando seus superiores para custos inflados na divisão de refinarias

Economist.com

15 Dezembro 2014 | 16h33



Não faz muito tempo que a Petrobrás era o orgulho do Brasil. A empresa estava no comando da maior descoberta de reservas oceânicas do século e tinha passado por uma histórica oferta pública de ações que captou US$ 70 bilhões em 2010. Tinha se tornado a líder tecnológica em meio às gigantes do petróleo na busca por novas reservas. Mas agora o empreendimento controlado pelo estado está afundando num buraco tão profundo quanto seus poços oceânicos. Cada dia traz notícias que vão de ruins a péssimas, grande parte delas resultante de um esquema de suborno de R$ 10 bilhões (US$ 3,7 bilhões) revelado recentemente pela Polícia Federal com a ajuda da imprensa.

No dia 12 de dezembro o jornal Valor publicou o mais recente capítulo da triste saga. Foi revelado que e-mails mostrados à publicação por Venina Velosa, ex-executiva da Petrobrás, indicam que ela vinha alertando seus superiores há anos para os custos inflados na divisão de refinarias. De acordo com ela, nem Paulo Roberto Costa, que dirigiu a divisão de refinarias de 2004 a 2012 e foi detido numa investigação da polícia anteriormente este ano, nem o sucessor dele, agiram diante dos alertas. Nem Maria das Graças Foster, que também teria recebido os e-mails de Venina, antes e depois de ter sido promovida a diretora executiva em 2012.

A Petrobrás respondeu que Venina não apresentou suas preocupações a uma investigação interna das irregularidades. Acrescentou que ela tinha guardado “estranhamente" sua correspondência durante cinco anos antes de apresentá-la à imprensa depois de ser penalizada, ao lado de dez outros executivos, por erros que fizeram o custo da construção de uma nova refinaria no nordeste ultrapassar o orçamento em R$ 3,9 bilhões.

Se as acusações de Venina forem verdadeiras (e a Petrobrás não as negou), elas serão as primeiras a indicar que Foster, com longa carreira na empresa e amiga da presidente Dilma Roussef, talvez soubesse da existência de irregularidades. De acordo com o depoimento de Costa vazado à imprensa, o delito envolvia o confisco de 3% do valor dos contratos assinados com sua divisão para fornecer recursos a políticos, incluindo membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e seus colegas de coalizão. No mês passado a polícia deteve mais de trinta executivos de seis grandes empresas de construção em conluio com Costa, bem como outro nome importante da Petrobrás. No dia 11 de dezembro os promotores federais acusaram formalmente 36 indivíduos de 154 episódios de corrupção e 105 casos de lavagem de dinheiro. No dia seguinte, os primeiros do grupo foram formalmente indiciados.

Como resultado, aumenta a pressão para que Dilma demita Foster - pressão que não parte mais apenas da oposição de centro-direita. Essa semana o procurador-geral da república, Rodrigo Janot, indicou que uma nova administração seria uma bênção para a empresa. Mas o PT disse que as alegações de Venina foram motivadas apenas pelas sanções disciplinares recebidas. E, de acordo com José Cardozo, ministro da justiça de Dilma, “não há razão objetiva para afastar a diretoria atual”. Para seu crédito, desde quando assumiu o comando da empresa, Foster deu mais transparência aos processos de licitação e compra e criou um departamento de supervisão. Mas há vozes dentro do PT dizendo que a posição dela se tornou insustentável. Muitos outros pensam o mesmo. Os acionistas minoritários da Petrobrás no Brasil estão furiosos. E o mesmo pode ser dito de um crescente número de estrangeiros. No mês passado foi revelado que as autoridades americanas também estão investigando o caso, pois há ações da Petrobrás negociadas na bolsa de Nova York. Essa semana sete firmas americanas de advocacia disseram ter começado a mover ações coletivas contra a empresa por causa das perdas multibilionárias dos investimentos de seus clientes; as ações da Petrobrás perderam um terço do seu valor em menos de um mês. O vasto fundo de pensão da empresa, que transbordava de ações da mesma, foi atingido com bastante força. O governo, que já enfrenta um déficit orçamentário cada vez maior, pode ter que intervir para remediar o rombo no financiamento resultante desse caso.

E o governo também pode se ver responsável pela monumental dívida de US$ 135 bilhões da empresa, que enfrenta cada vez mais dificuldades para arcar com os juros. Se o preço do petróleo continuar a cair, muitos poços do pré-sal cuja exploração seria financiada pelo dinheiro emprestado podem se tornar comercialmente inviáveis. Em outubro, a agência de classificação de crédito Moody’s rebaixou a nota da Petrobrás, citando a alta dívida da empresa e seus pesados compromissos em gastos de capital. No dia das revelações do Valor a empresa disse que atrasaria novamente a divulgação dos resultados financeiros do terceiro trimestre, que deveriam ser revelados no dia 14 de novembro, mas foram adiados porque talvez seja preciso verificar os números das peças após o escândalo.

E a Petrobrás não é a única que está em maus lençóis. O futuro de muitas de suas fornecedoras, com cerca de 220 mil funcionários, também é alvo de dúvidas. Até os bancos controlados pelo estado se mostram cada vez mais relutantes a conceder empréstimos a elas. Com tantas empresas de construção paralisadas, o destino de R$ 871 bilhões em projetos de infraestrutura se tornou incerto, incluindo o daqueles ligados à Olimpíada de 2016.

Idealmente, Dilma deveria seguir os conselhos de Janot e substituir Foster por um administrador independente de fora da empresa que possa arrumar a casa. Isso aumentaria a confiança, mas é improvável que ocorra. A presidente sempre deixou claro que considera a Petrobrás valiosa demais para ser entregue nas mãos do setor privado, do qual ela desconfia. Não ajuda o fato de os episódios terem ocorrido debaixo do nariz dela quando ocupava o cargo de ministra de minas e energia do seu predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Em vez de um barril de petróleo sem fundo, a Petrobrás se converteu num barril de pólvora. Boa parte da energia de Dilma para o segundo mandato, que terá início no dia 1.o de janeiro, será dedicada a impedir uma explosão ainda maior.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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