Descompasso no governo mantém juros elevados, diz especialista

O descompasso entre as políticas fiscal e monetária do governo Lula estaria obrigando o Banco Central a manter os juros elevados nos últimos meses. Esta é a opinião de Sérgio Werlang, diretor-executivo do Banco Itaú e ex-diretor do Banco Central (BC). Em entrevista ao programa Conta Corrente, da "Globo News", Werlang disse que a política monetária contencionista tem contrastado com a política fiscal expansionista, que, segundo ele, levará a um aumento real de 7% nos gastos do governo, mesmo depois do corte de R$ 15 bilhões no orçamento deste ano. "Estamos com um estímulo na economia do lado fiscal, o que tem feito com que a atividade econômica desacelere muito mais lentamente do que a política monetária indicaria. Por isso temos que ter taxas de juros reais tão elevadas." Werlang prevê que as taxas de juros permanecerão altas por muito tempo antes de voltarem a cair. Segundo o diretor-executivo do Itaú, a política monetária começou a fazer efeito na desaceleração da economia em janeiro, como demonstrou a queda da produção industrial naquele mês. Por outro lado, a desvalorização do dólar e a alta do petróleo são fatores complicadores do quadro econômico, acredita. "Ainda parece necessário dar continuidade ao processo. O descompasso da política monetária e fiscal tem como conseqüência o fato deste juro real ter de permanecer elevado por mais tempo", explicou. "Este deverá ser o último aumento, mas essa taxa vai levar muito tempo para cair." O diretor do Itaú alertou, porém, que um eventual agravamento do descompasso entre as políticas fiscal e monetária poderá obrigar o Banco Central a voltar a subir os juros. "Se a política fiscal continuar nesse ritmo tão expansionista - ou talvez até mais, como nós vimos com mais um aumento de despesas - poderá acarretar um aumento ainda maior do juro real mais adiante", ponderou Werlang. Na situação presente, ele acha que a economia apresentará um crescimento mediano. "Com certeza, nós devemos crescer neste ano menos do que crescemos no ano passado", afirmou. "Uma estimativa por volta de 3% seria razoável, com as informações disponíveis até agora." O ex-diretor do BC acha que o sistema de metas de inflação não corre o risco de ser modificado. Ele lembrou que a banda de tolerância de 2,5 pontos percentuais torna a meta factível. "O nosso sistema não é rígido. Ele admite uma flexibilidade bastante grande, num intervalo de 2,5 pontos porcentuais ao redor do centro da meta", prosseguiu. "E o BC tem utilizado bem esse espaço da meta, como no ano passado, quando a economia cresceu bastante", frisou Werlang. "Da mesma forma, o BC diz que está mirando 5,1%, mas se acontecer choque na economia que leve essa inflação (a um patamar) um pouco mais alto, para uns 6%, estará perfeitamente dentro da banda e o sistema de metas terá sido cumprido."

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