Desconfiança dificulta a gestão da dívida mobiliária

Em maio, os resgates de R$ 65,09 bilhões de títulos federais superaram as emissões em R$ 27,24 bilhões e indicaram mais pressão do mercado sobre o Tesouro Nacional. Os investidores venderam papéis corrigidos por índices de preços (NTN-B) e compraram títulos prefixados (LTN e NTN-F), além de papéis indexados pela Selic (LFT). A dívida só não caiu mais por causa da apropriação de juros.

O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2013 | 02h11

O resgate líquido decorre da deterioração do ambiente econômico, que afeta a administração da dívida, sugerem os dados do Relatório Mensal da Dívida Pública Federal. A esta altura, há risco de descumprir as metas do Plano Anual de Financiamento (PAF), que baliza as expectativas dos aplicadores.

Nas últimas semanas, as carteiras de títulos públicos sofreram fortes oscilações, afetando, em especial, a rentabilidade dos fundos obrigados a aplicar em papéis de longo prazo, como as entidades de previdência privada fechadas e abertas. Os participantes dos fundos, inclusive daqueles geridos por instituições de porte, já não se beneficiam com aplicações maciças em papéis federais.

Entre abril e maio, a composição da dívida mobiliária mudou acentuadamente: o peso dos prefixados passou de 38,93% para 40,42% do total (a meta do PAF é de 41% a 45%) e o dos títulos corrigidos pela Selic foi de 22% para 22,56% (distante da meta de 14% a 19%). O peso dos papéis corrigidos pela inflação caiu de 38,51% para 36,40% (a meta é de 34% a 37%). Pior, os títulos cambiais, com peso de 0,62%, estão muito aquém do previsto no PAF (3% a 5%).

A gestão da dívida pública é bem reputada, mas os operadores não podem ignorar oferta e demanda. Se o juro básico tende a subir, a demanda por papéis indexados à Selic é natural. O desinteresse por papéis reajustados pelo IPCA se deve ao temor de achatamento artificial da inflação, via controle de preços de energia elétrica e derivados de petróleo, redução de tributos ou cancelamento de reajuste de tarifas de ônibus. Dada a marola cambial, é normal que o Tesouro evite papéis em dólar.

Inflação desgarrando da meta, dúvidas quanto à política de câmbio flexível, relaxamento fiscal e, em especial, PIB crescendo pouco sujeitam a política econômica à desconfiança. Prova disso é que o real está entre as moedas que mais sofreram desvalorização. A credibilidade é elemento-chave para a gestão da dívida, pois é o que propicia menor volatilidade, menor remuneração dos papéis e maiores prazos de vencimento.

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