JOSHUA BRIGHT | NYT
JOSHUA BRIGHT | NYT

Desconstruindo o império Trump

O império de Trump nada tem de global: 93% de seus negócios estão concentrados nos Estados Unidos

THE ECONOMIST

10 Dezembro 2016 | 05h00

A Trump Tower atualmente em construção em Worli, agitado bairro comercial de Mumbai, na Índia, parece uma obra como outra qualquer, mas sua campanha publicitária vende um sonho. Nos materiais promocionais, um arranha-céu dourado se ergue ao lado de uma foto de Donald Trump. O magnata, propagandeia cartazes e folhetos, é uma referência mundial, um negociante sem igual que opera em algumas das principais metrópoles do mundo, o homem que construiu o sonho americano. Até algumas semanas atrás, o site da construtora Lodha, responsável pelo empreendimento, estampava a mensagem: “Parabéns, presidente eleito”. Depois que se intensificou a polêmica sobre os possíveis conflitos de interesses entre as operações do grupo de Trump e seu novo emprego, a mensagem foi apagada.

Trump cultiva a seu próprio respeito uma imagem de magnata global. De certa forma, é essa ilusão que está por trás do receio de que a Trump Organization se transforme numa grande rede mundial de negócios vitaminados por seu poder político. Há algum tempo, os americanos vêm sendo bombardeados com notícias sobre empreendimentos multibilionários mundo afora, fotos de Trump trocando apertos de mão com empresários dos mais diversos países e imagens de edifícios exóticos, estampando o sobrenome dele na fachada. O economista Paul Krugman diz que a presença de Trump na Casa Branca pode render US$ 10 bilhões aos negócios da família.

Em razão dos métodos pouco convencionais do presidente eleito, ainda é cedo para dizer se isso vai acontecer. Mas a ameaça exige, antes de mais nada, uma análise imparcial das reais dimensões de sua companhia. Longe de ser um Golias global do branding, a Trump Organization é uma empresa modesta, com atuação centrada no mercado imobiliário americano. Para duplicar sua fortuna nos próximos quatro anos, a família do presidente terá de reinventar um negócio medíocre. É possível até que seja a debilidade, e não o potencial, da companhia o fator que mais incentiva Trump a misturar a política com suas iniciativas empresariais.

Os dados disponíveis sobre a Trump Organization vêm basicamente dos documentos que o então candidato republicano encaminhou às autoridades eleitorais do país em 2015. The Economist agregou os dados financeiros das cerca de 170 unidades do grupo.

Comecemos pelo tamanho. O negócio do presidente eleito deve valer cerca de US$ 4 bilhões, com receita anual de US$ 490 milhões. Se estivesse listada em bolsa, seria a 833.ª empresa americana em valor de mercado e a 1.925.ª em faturamento. Outros políticos que ocuparam cargos políticos de primeira grandeza nos EUA, ou se candidataram a eles, como Nelson Rockefeller, Ross Perot, Mitt Romney e Michael Bloomberg, eram donos ou executivos de empresas mais poderosas.

Cerca de 80% do valor da Trump Organization diz respeito a imóveis residenciais e comerciais. Metade do valor do grupo vem de cinco edifícios: a Trump Tower e dois outros prédios em Manhattan, além de participações em dois conjuntos de escritórios em Nova York e San Francisco.

A operação de branding é acanhada, sendo responsável por apenas 11% do valor de seus ativos e 13% do faturamento. O Panamá, onde há um hotel da marca Trump, é a maior fonte de comissões. O projeto em desenvolvimento em Mumbai rende cerca de US$ 550 mil anuais. Hotéis em Toronto e Manila geram valores modestos. No fundo, é um negócio muito pouco globalizado: 66% do valor da Trump Organization está concentrado em Nova York e 93% nos EUA. Os melhores ativos foram criados há mais de uma década.

Segunda classe na 5.ª Avenida. A presença de Trump na Casa Branca poderia encher sua burra de duas maneiras. A primeira seria o crescimento dos lucros dos ativos existentes. As perspectivas, nesse caso, não são promissoras. A eventual valorização da marca Trump durante a campanha eleitoral, por exemplo, deveria ter sido acompanhada de uma alta significativa nos preços praticados pelos hotéis que levam o nome do magnata. Mas, em 2016, a diária média cobrada por esses hotéis nos EUA teve queda de 1%, como aconteceu também com outros estabelecimentos de 4 ou 5 estrelas. É verdade que, em novembro, houve uma alta de 12% em relação aos preços praticados um ano antes. No entanto, mesmo que as diárias permaneçam nesse patamar, é improvável que isso se reflita diretamente nos resultados do grupo.

Os contratos de licenciamento com que os hotéis operam são, em sua maioria, de longo prazo, permanecendo insensíveis a flutuações do mercado. Os inquilinos das salas comerciais da Trump Organization também têm contratos de longa duração. Em outras palavras, mesmo que a marca se valorize, pode levar anos — mais de quatro — para que isso se traduza em um fluxo de caixa mais robusto.

O que aumentou consideravelmente foi o volume de quartos comercializados pelos hotéis da Trump Organization, com alta de 40%, em média, ao longo de 2016. Isso se deve principalmente à inauguração de um hotel em Washington, o qual, fugindo à regra dos outros empreendimentos do grupo, é de propriedade da Trump Organization. Mas é improvável que o fenômeno se repita e a família embarque na construção de uma série de hotéis, campos de golfe e arranha-céus. Depois de 20 anos de construção frenética, o setor hoteleiro global está saturado. Em Nova York, o mercado de imóveis comerciais começou a patinar: depois de crescer 9% ao ano, em média, nos últimos cinco anos, os aluguéis permaneceram estáveis em 2016. E, de 2005 para cá, o número de americanos que jogam golfe encolheu 20%.

Outro problema pode ser o financiamento. Os grandes bancos desempenham papel crucial no setor: a construtora indiana Lodha diz que o JPMorganChase investe em suas obras. Segundo as informações declaradas às autoridades eleitorais em 2015, Trump deve mais de US$ 120 milhões ao Deutsche Bank. Se a realização de novas obras pela Trump Organization gerar acusações de conflito de interesses e prática de compadrio, os banco globais, temendo ser prejudicados por ações judiciais e inquéritos no Congresso americano, talvez prefiram tirar seu time de campo.

As perspectivas ruins podem fazer com que a organização procure se diversificar, entrando em setores que fazem uso menos intensivo de capital e crédito. A filha de Trump, Ivanka, tem uma grife de moda e joias. Se os filhos do presidente eleito realmente assumirem o comando do grupo, como Trump diz que acontecerá, talvez se sintam livres para embarcar em novos experimentos.

Tudo indica que Trump acabará confundindo negócios e política. Mas não é tão certo que isso resulte na valorização de sua empresa. Com ativos envelhecidos em setores já maduros, um histórico empresarial inconsistente e controvérsias em torno de conflitos de interesses, o mais provável é que o valor da Trump Organization permaneça estável ou entre em declínio. E é isso, mais que a chegada de novos bilhões a suas contas bancárias, que pode realmente tirar o novo presidente americano do sério.

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