An Rong Xu/The New York Times
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Desculpe, mas a maior fabricante de bicicletas do mundo não pode ajudá-lo a comprar uma bicicleta

A pandemia criou um boom de bicicletas - e uma escassez; Giant, a gigante taiwanesa, está tentando atender à demanda enquanto navega na política comercial

Raymond Zhong, The New York Times

18 de agosto de 2020 | 10h30

TAICHUNG, TAIWAN - Porque as academias estão fechadas e todos nós gostaríamos de fazer um pouco mais de exercício físico; porque estamos evitando ônibus e trens; porque precisamos de mais atividades ao ar livre; ou talvez apenas porque a pandemia nos fez ansiar por prazeres simples, como o vento contra nossos rostos, as vendas de bicicletas estão disparando em todo o mundo.

O resultado foi uma escassez internacional de bicicletas. E a maior fabricante de bicicletas do mundo, a Giant, sabe que seus suprimentos vão continuar escassos por algum tempo.

Depois que o presidente Donald Trump começou sua guerra comercial contra a China em 2018, a Giant transferiu parte de sua fabricação para o mercado americano da China para a base da empresa em Taiwan, com o objetivo de evitar as tarifas adicionais. No ano seguinte, a União Europeia impôs direitos antidumping às bicicletas elétricas da China, então a Giant começou a fabricá-las também em Taiwan.

Mas quando a pandemia aumentou a demanda por bicicletas, a Giant precisou reverter o curso. Com sua planta de Taiwan já sob pressão, a empresa não teve outra escolha a não ser aumentar a produção na China, mesmo que isso significasse arcar com o custo extra das tarifas.

“Não há nenhum outro lugar do mundo que pode ir de zero a 100 de um segundo para o outro, como um carro esporte. Zuuum!”, disse Bonnie Tu, a presidente da Giant, em uma entrevista.

O governo Trump este ano suspendeu temporariamente as tarifas sobre diversos produtos chineses que são considerados desimportantes em termos estratégicos. As bicicletas entraram na lista, o que facilitou que a Giant voltasse a produzir na China algumas de suas bicicletas para o mercado norte-americano.

Mas a trégua tarifária para certos tipos de bicicletas expirou este mês, o que significa que a Giant talvez precise ajustar seus arranjos de abastecimento mais uma vez. O pacto comercial que os Estados Unidos e a China assinaram em janeiro resistiu mesmo com o conflito das duas potências em outras questões. O que não quer dizer que o planejamento tenha ficado menos complicado para empresas e setores que estão no meio do fogo cruzado.

“Não é que eu queira sair da China. De jeito nenhum”, disse Bonnie. “É que não há nada que possa ser feito. Existem muitas barreiras comerciais.”

A Giant ganhou destaque décadas atrás, fazendo bicicletas para a icônica marca americana Schwinn, antes de aos poucos se tornar uma potência por si só. Quando a China começou a substituir Taiwan como um centro de manufatura, a Giant abriu fábricas no país, ainda mantendo uma planta perto de Taichung, a cidade taiwanesa onde teria sido inventado o chá de bolhas (bubble tea, que vem com bolinhas de tapioca). Hoje, a empresa opera cinco fábricas na China, responsáveis por 70% de sua produção.

A Giant desligou as fábricas chinesas quando as infecções por coronavírus começaram a se espalhar rapidamente pelo país e as manteve de portas fechadas por um mês e meio. Aí, quando a Europa e os Estados Unidos começaram o lockdown, os importadores cancelaram os pedidos.

As vendas nos Estados Unidos voltaram a aumentar em março, disse Bonnie, e hoje todas as fábricas da Giant estão funcionando quase a todo vapor para compensar a perda de produção. Apesar da pressa das pessoas que estão comprando bicicletas pela primeira vez, ela não planeja investir “cegamente” em nova capacidade de fabricação. Ela ainda não está convencida de que essa paixão recém-descoberta do mundo pelos veículos de duas rodas sobreviverá à pandemia.

“Todo boom termina algum dia”, disse ela. “É apenas uma questão de saber se vai terminar rápida ou lentamente”.

Bonnie disse que achava difícil entender por que os empresários chineses pareciam acreditar que seus clientes se importavam apenas com o preço, não com a qualidade. “Eles estão dispostos a gastar dezenas de milhares de euros para beber uma garrafa de vinho tinto”, disse ela. “Por que acham que outras pessoas estão dispostas a andar numa bicicleta barata?”.

Quando se trata de China, sua preocupação é manter a força de trabalho da Giant no país. O interesse dos jovens por empregos em fábricas está diminuindo. Contratar na China ainda parece difícil no momento, apesar das demissões generalizadas.

“Antes, quando queríamos contratar um trabalhador na China, tinha três pessoas na fila”, disse Bonnie. “Agora, quando você quer contratar três trabalhadores, tem sorte de encontrar uma única pessoa na fila”.

A Giant, disse ela, está tentando descobrir a melhor forma de usar seus recursos chineses em meio à turbulência geopolítica. E se amanhã Trump cancelar sua guerra comercial?

“É claro que voltaríamos para a China”, disse ela, rindo. “Com certeza”.

Os laços comerciais entre Taiwan e a China são fortes, ainda muitas outras coisas estejam tensas no relacionamento. A China reivindica a democracia autônoma como parte de seu território e não descartou o uso da força para subjugar a ilha.

A Giant recentemente abriu uma fábrica na Hungria e pretende produzir 300 mil bicicletas no país no ano que vem. Muitas fabricantes se estabeleceram no Vietnã, mas o sudeste da Ásia não faz sentido para a Giant, segundo Bonnie. Não há mercado local suficiente para suas bicicletas.

Será que algum dia a Giant pode fabricar nos Estados Unidos?

“Acho que não dá para dizer que não existe essa possibilidade”, disse Bonnie, um tanto enigmática. Desde o início da guerra comercial, disse ela, “venho pensando que tudo é possível”. Ainda assim, seria “muito, muito difícil”. O que ajudaria, completou, seriam os robôs.

“Se conseguirmos promover mais automação, haverá uma oportunidade maior”, afirmou. “Com a automação de hoje, acho que não há absolutamente nenhuma oportunidade”.

Em outras palavras, a única maneira de fazer bicicletas nos Estados Unidos é não contar com muitos americanos.

A desindustrialização do Ocidente é uma das muitas realidades sombrias de 2020 que a indústria de bicicletas não vai mudar por conta própria. Mas o boom da bicicleta na era do coronavírus aponta para outros tipos de transformações que podem surgir deste momento nebuloso. Cidades do mundo inteiro estão repensando suas ruas para restringir os automóveis e acomodar melhor os pedestres e ciclistas. Os governos europeus estão acelerando os investimentos em infraestrutura e programas de promoção de bicicletas.

Numa linda tarde de verão, Bonnie alegremente concorda em dar um passeio perto da sede da Giant em Taichung. Ela emerge de seu escritório com uma viseira espelhada e uma blusa de ciclismo esverdeada.

Mesmo os cantos mais monótonos de Taiwan estão repletos de uma surpreendente beleza natural: as montanhas azuis, o mar cintilante, a vegetação numa infinidade de tons de arregalar os olhos. Taiwan teve pouquíssimas mortes por coronavírus e não fez lockdown em massa.

Ela tem muitos motivos para se animar na subida da colina com sua bicicleta elétrica azul brilhante. “É isso aí!”, grita. “Vamos nessa!”/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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