André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Desde a metade do ano passado, BC errou 'para baixo' 9 de 13 projeções de inflação de curto prazo

As pressões sobre a inflação no Brasil se intensificaram a partir do segundo semestre do ano passado, com a alta das commodities, mas o Banco Central manteve o discurso de que as elevações nos preços dos alimentos eram transitórias

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 11h52
Atualizado 10 de agosto de 2021 | 15h05

BRASÍLIA - Desde o início do segundo semestre de 2020, quando a alta das commodities (produtos básicos) no mercado internacional passou a impulsionar os preços de alimentos no Brasil, o Banco Central vem errando seguidamente, para baixo, suas projeções de inflação de curto prazo. 

De julho de 2020 a julho de 2021, o BC subestimou a inflação em suas projeções em 9 dos 13 meses considerados. No episódio mais recente, calculou uma inflação de apenas 0,39% em julho, enquanto o IBGE revelou nesta terça-feira, 10, uma taxa de 0,96%.

As pressões sobre a inflação no Brasil se intensificaram a partir do segundo semestre do ano passado, com a alta de produtos como soja e milho no mercado internacional, na esteira da pandemia de covid-19. Além do avanço nos preços de alimentos, os brasileiros passaram a enfrentar ainda em 2020 reajustes nos combustíveis, com impactos crescentes sobre o IPCA, o índice oficial de inflação.

Apesar disso, o BC, comandado por Roberto Campos Neto, manteve o discurso de que as elevações nos preços dos alimentos eram transitórias. No comunicado de política monetária de setembro do ano passado, por exemplo, o Banco Central citou uma “alta temporária” nos preços de alimentos. Em outubro, defendeu que haveria um “arrefecimento”.

Com o passar do tempo, foi ficando claro que as pressões não seriam temporárias. Ainda assim, o BC se manteve otimista, subestimando o avanço dos preços. Nos seis últimos meses de 2020, a instituição projetou inflação menor que a efetivamente registrada em cinco oportunidades. Para outubro, por exemplo, o BC calculou inflação de 0,30%, mas o índice foi de 0,86%. Para novembro, a projeção era de 0,27%, mas o IPCA foi de 0,89%.  

Os erros “para baixo” continuaram em 2021. O BC projetou para fevereiro, por exemplo, inflação de 0,36%, mas o índice ficou em 0,86%. Em outro caso que chama a atenção, a inflação projetada de maio era de 0,31%, mas a alta de preços efetiva foi de 0,83%.

Em 4 dos 13 meses considerados, as projeções de inflação ficaram acima do efetivamente registrado pelo IBGE, mas foi por pouco. Um exemplo é o mês de julho de 2020, quando a instituição projetava inflação de 0,43%, mas o índice foi de 0,36%. Em janeiro deste ano, o BC calculava 0,27% e a taxa foi de 0,25%. Na prática, quando a inflação oficial fica abaixo da projeção do BC, a margem é reduzida; quando fica acima do projetado, a margem é ampla.

As projeções de curto prazo para inflação do BC são atualizadas a cada três meses por meio do Relatório de Inflação. Quando o documento é divulgado, o presidente do BC e o diretor de Política Econômica, Fabio Kanczuk, concedem entrevista coletiva à imprensa. A última vez em que isso ocorreu foi em 24 de junho.

Na ocasião, o BC já citava, além da pressão mais duradoura dos alimentos, duas outras fontes de preocupação: a alta nos preços de energia elétrica, em função da estiagem no País, e a retomada do setor de serviços, que poderia abrir espaço para a remarcação de preços.

Durante a entrevista, o Estadão/Broadcast chegou a questionar Campos Neto sobre a inflação de curto prazo projetada pela autarquia para os meses seguintes: 0,62% em junho, 0,39% em julho e 0,26% em agosto. A reportagem perguntou, especificamente, o que justificaria uma inflação de apenas 0,26% em agosto, sendo que já havia em junho um risco crescente trazido pelos preços de energia e pela possibilidade de aceleração dos serviços. Em sua resposta, Campos Neto disse: “No Brasil ainda temos uma inflação de serviços bastante baixa”.

Em dois meses, a percepção parece ter mudado. Na semana passada, quando elevou a Selic (a taxa básica de juros) em 1 ponto porcentual, para 5,25% ao ano, o BC já havia citado uma “composição mais desfavorável” da inflação.

“Destacam-se a surpresa com o componente subjacente da inflação de serviços e a continuidade da pressão sobre bens industriais, causando elevação dos núcleos (de inflação)”, disse o BC em sua linguagem técnica. A instituição também citou uma “piora recente em componentes inerciais dos índices de preços, em meio à reabertura do setor de serviços”.

"Novas pressões"

Nesta terça, o BC publicou a ata da reunião da semana passada. Nela, a instituição afirma que há “novas pressões” inflacionárias causadas pela bandeira tarifária de energia elétrica - que eleva o custo da conta de luz dos consumidores - e por novos aumentos nos alimentos, na esteira dos problemas climáticos. 

Com a geada em algumas regiões do País, há tendência de novos aumentos nos preços dos alimentos. “Em conjunto, esses fatores acarretam revisão significativa das projeções de curto prazo”, justificou o BC.

A escalada da inflação, mês a mês, fez o BC sinalizar na ata que, em setembro, pode elevar a Selic em mais 1 ponto porcentual, para 6,25% ao ano. Ao mesmo tempo, a instituição deixou aberta a possibilidade de aplicar aumento ainda maior nos juros para controlar os preços, se necessário. O objetivo fundamental do BC é assegurar a estabilidade de preços no Brasil. Para isso, a instituição tem como ferramenta justamente a Selic.

A batalha para segurar a inflação em 2021 já está perdida. O próprio BC projeta um IPCA de 6,5% este ano, mas a meta é de 3,75%. Nem mesmo com a margem de 1,5 ponto porcentual (inflação até 5,25%) o BC conseguirá ficar dentro dos parâmetros. Isso não ocorre desde 2016, no primeiro ano do governo Temer. 

Para 2022, a projeção atual do BC é de 3,50% - exatamente a meta perseguida. O mercado financeiro já projeta IPCA de 3,84% no próximo ano. O porcentual vem subindo há três semanas, conforme o Relatório de Mercado Focus. 

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