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‘Desde o começo, eles sempre pensaram alto’

Autora de livro sobre Lemann, Telles e Sicupira detalha a influência do trio na cultura brasileira de negócios

Entrevista com

CÁTIA LUZ, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h07

Nos últimos anos, a jornalista Cristiane Correa admite que se tornou praticamente uma 'stalker', tentando cercar o trio de empresários que, em menos de quatro décadas, construiu o maior império do capitalismo brasileiro: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. "Em qualquer evento que algum deles estivesse, eu estava lá", diz Cristiane. A ofensiva era para convencer o mais famoso triunvirato da economia brasileira a fazer uma biografia. A empreitada teve início em 2007 e a resposta do trio foi sempre um educado não.

Em 2011, após muita insistência, ela decidiu fazer um livro de negócios sobre a trajetória dos empresários, mesmo sem a ajuda deles. Foram quase 100 entrevistas para conseguir detalhar um modus operandi que teve início com a criação do Garantia, o mais badalado banco de investimentos dos anos 80 e 90. Já lançado em São Paulo, o livro Sonho Grande tem lançamento marcado para quarta-feira no Rio.

Qual foi a motivação para escrever o livro?

Eles sempre estiveram nas maiores operações do País e, em seguida, passaram a ganhar o mundo, com AB Inbev, maior cervejaria do mundo, a rede Burger King e a gigante de alimentos Heinz. Como jornalista de negócios, acompanhei de perto essa movimentação e vi que tinha ali uma cultura muito particular, que as pessoas amavam ou odiavam, e que rendia uma boa história.

O que faz a diferença na cultura criada pelos três?

Primeiro, o foco. Eles não têm frase de efeito ou uma sacada genial que vira a empresa da noite para o dia. Eles traçam uma meta e o método é fazer todo dia um pouquinho melhor que no dia anterior. É a história da melhoria contínua. Segundo, a preocupação em ter os caras certos e em estabelecer regras claras: você vai trabalhar para caramba, tem muita possibilidade de ascensão, mas vai ter que dar o sangue. É uma cultura super sólida, às vezes, quase um culto. Todo mundo fala igual, se veste igual. E quem não dá certo eles não têm o menor constrangimento em dispensar. Outra coisa que salta aos olhos é a simplicidade da gestão. Não tem frescura. Ninguém chama o Jorge Paulo de Doutor Lemann, ninguém tem sala e não há hierarquia muito rígida. Essa simplicidade eles usam para tudo, inclusive para definir as metas de cada ano. Não são 15 metas, são, no máximo, cinco.

Você diz que não dá para ser indiferente à cultura engendrada pelo trio. Qual é a sua posição?

Eu nunca trabalhei lá! (risos). Nunca fui submetida a essa pressão, também nunca ganhei os bônus. Na verdade, entrevistei muita gente que falou: "Aquilo era uma panela de pressão, não dava para ficar". No Garantia, teve um advogado que chegou para trabalhar na segunda de manhã, saiu para almoçar e nunca mais voltou. O Eduardo Gianetti (economista) ficou só uma semana no banco. Disse que a cultura é muito legal, só que era não para ele.

Acho muito interessante você ter três empresários brasileiros fazendo negócios de projeção global. Agora, com certeza a pressão por metas gerou distorções, tanto que a empresa já foi obrigada a pagar indenização por causa de assédio moral. Não é o modelo de gestão perfeito. É um modelo que funciona para aquelas pessoas.

Que legado eles deixam na

cultura de negócios do País?

Eles foram pioneiros no Brasil na incorporação de conceitos até então desconhecidos por aqui, como a meritocracia e o 'partnership' (possibilidade de os melhores funcionários se tornarem sócios da empresa). Nos anos 70, quando o Jorge Paulo começou o Garantia, os grandes grupos brasileiros eram, em sua maioria, familiares. E se você era funcionário, eram grandes as chances de você morrer funcionário. Eles trouxeram para o País a cultura de dividir para crescer. As fundações que o trio criou, principalmente a Endeavor, também ajudaram a fortalecer o empreendedorismo no Brasil.

O que lhe surpreendeu no processo de apuração do livro?

Um dos pontos foi perceber que Jorge Paulo não é um executor, não é quem põe a mão na massa. Nas entrevistas, ele apareceu como o cara que sempre pensou no futuro, que conseguia contratar pessoas talentosas e mantê-las do lado. Ele não senta em uma mesa para negociar. Quem faz isso é o Roberto Thompson, um personagem-chave. Ele está com o trio desde os anos 80. É o banqueiro dos banqueiros, é o consiglieri do trio. Foi ele que estruturou as operações financeiras das grandes aquisições do grupo. O Jorge Paulo senta à mesa no máximo para uma assinatura no último dia.

O trio comprou símbolos do capitalismo americano, como a Budweiser, o Burger King e a Heinz. Especula-se que o próximo passo seria a Coca- Cola. Onde eles querem chegar?

Isso tem a ver com o nome do livro. Eles sempre pensaram alto. Quando compraram a Brahma, desde o comecinho, o Marcel de vez em quando soltava, em tom de brincadeira: "Um dia a gente vai comprar a Anheuser-Busch". Mas eles realmente estavam pensando nisso. Acho que eles querem hoje se tornar empresários globais com grandes marcas ligadas a alimentos e bebidas, setores que têm muita sinergia.

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