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Desejos e obstáculos

Desempenho do PIB dá medida do desafio que Temer terá pela frente

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2016 | 05h00

Depois de uma longa agonia e de quase quatro meses afastada do cargo, Dilma Rousseff sai de cena e Michel Temer assume definitivamente a presidência da República com uma missão central: promover uma virada na economia brasileira, capaz de “recolocá-la nos trilhos”, como ele mesmo definiu em seu primeiro pronunciamento oficial, e evitar que descarrile, ao menor solavanco de origem interna ou externa. Para tudo isso, Temer terá à sua frente não mais que dois anos de governo até desembarcar nas eleições de 2018.

Os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, por coincidência divulgados no dia da votação final do impeachment, dão a medida desse desafio. Pelo sexto trimestre consecutivo, o PIB afundou. Dessa vez, foi uma queda de 0,6% sobre os três meses anteriores e de 3,8% sobre o mesmo período de 2015, que levou a uma redução acumulada de 4,6% no primeiro semestre deste ano.

Também apontaram para baixo outros indicadores importantes da atividade econômica, como a produção da agropecuária e do setor de serviços. É verdade que surgem alguns sinais positivos, como a estabilização da indústria e uma reação dos investimentos, mas eles ainda são muito limitados e muito tímidos para que se possa contar com uma reversão do quadro a curto prazo.

Trata-se, portanto, de uma recessão para ninguém pôr defeito. Uma recessão que se materializa em lojas vazias, indústrias quebradas e principalmente em um contingente de quase 12 milhões de desempregados – cenário perfeito para o enredo que conduziu à troca de comando no Planalto.

Dilma Rousseff perdeu o mandato ontem, em julgamento no Senado, por 61 votos a 20, oficialmente pelos desvios de política fiscal, as chamadas “pedaladas”, mas, é inegável, também pelo “conjunto da obra” na economia.

Temer sabe que terá de atuar já – e não apenas sobre as expectativas – para mostrar serviço nesse campo, com uma combinação, em doses milimetricamente controladas, de ajuste fiscal, reformas constitucionais, alguns estímulos ao crescimento e alguns instrumentos de proteção social, cruciais para não deixar a situação desandar, ainda mais em plena temporada de eleições. E para que seu governo seja mais do que um simples hiato até 2018.

Prioridades. Por isso mesmo, ele destacou em seu pronunciamento de ontem à noite, prioridade à geração de empregos, ampliação dos programas sociais e retomada da confiança, além de insistir na necessidade de aprovação da proposta que impõe teto aos gastos públicos e na negociação das reformas da Previdência e trabalhista.

À primeira vista, esse desejo é quase um consenso. Porém, muitos obstáculos deverão surgir no meio do caminho. E esse meio do caminho passa pelo Congresso. As primeiras ameaças apareceram ontem mesmo, no calor da batalha final do impeachment. A oposição, que tentava se recuperar do nocaute e ganhar musculatura para voltar à briga, ganhou uma palavra de ordem de Dilma, ainda que seja discutível a força da ex-presidente dentro do PT. No seu discurso mais incisivo durante toda a crise, Dilma prometeu “oposição determinada” ao novo governo.

Na própria base de sustentação de Temer, aprofundaram-se as fissuras, que já estavam visíveis desde o encaminhamento de medidas para corte de gastos, como a suspensão dos reajustes salariais dos funcionários públicos e dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Foi parte substancial do PMDB, liderada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, que garantiu a manutenção dos direitos políticos de Dilma, contrariando frontalmente as posições dos tucanos e os interesses palacianos.

Foi só a largada do governo Temer. Mas pode indicar o que virá por aí.

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