Evelson de Freitas/Estadão
Rocca diz que a melhora nos indicadores foi puxada especialmente pelas empresas de capital fechado. Evelson de Freitas/Estadão

Indicadores financeiros de empresas voltam ao nível pré-crise

Para economistas, melhora é mais resultado da forte reestruturação das companhias, com corte de despesas fixas, do que da retomada da demanda; geração de caixa é o melhor em oito anos, segundo estudo do Cemec/Fipe

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2019 | 05h00

Depois de três anos de resultados negativos, o desempenho das empresas começa a dar sinais de melhora. A boa notícia aparece em alguns indicadores financeiros, como geração de caixa e capacidade de pagamento da dívida, que voltaram ao nível pré-crise (2014), segundo levantamento feito pelo Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec-Fipe). O resultado, no entanto, é mais reflexo do ajuste feito pelas companhias em suas estruturas do que da retomada econômica, explicam economistas.

Com a forte e prolongada recessão, as empresas tiveram de reduzir a folha de pagamento – ou seja, demitir funcionários – e enxugar outras despesas fixas para se adequar ao novo cenário econômico, de receitas mais baixas. Altamente endividadas, elas também foram obrigadas a se desfazer de ativos para fazer caixa e reduzir o nível da dívida. Com uma estrutura mais enxuta, a ligeira retomada econômica acabou tendo reflexo positivo no balanço das companhias.

Num grupo de 1.342 empresas (1.088 fechadas e 254 abertas), a geração de caixa teve o melhor desempenho em oito anos. Segundo o diretor do Cemec-Fipe, Carlos Antonio Rocca, responsável pelo estudo, a melhora nos indicadores foi puxada especialmente pelas empresas de capital fechado. “Os números revelam uma situação financeira melhor entre as empresas de capital fechado do que as de capital aberto.”

O índice de alavancagem – que mede o grau de endividamento da empresa – também apresentou melhora. No caso das empresas de capital fechado, o indicador já é menor que o registrado no período pré-crise e, nas companhias abertas, está bem próximo de chegar a esse nível. Rocca afirma que a redução da taxa básica de juros ajudou na evolução dos números.

De agosto de 2016 para cá, a Selic caiu de 14,25% para 6% ao ano. “O corte na taxa impacta diretamente no pagamento dos juros, nas despesas financeiras e na captação de recursos pelas empresas, que fica mais barata”, diz Rocca. Exemplo disso é que, na média, o porcentual de empresas que não consegue gerar caixa nem para pagar os juros da dívida diminuiu e está menor que o nível pré-crise. No auge, em 2016, 38% das empresas estavam nessa situação. Hoje está em 27,5% – abaixo dos 27,8% de 2014. Nas companhias fechadas, esse porcentual caiu para 23,6%.

Entre as empresas que conseguiram sair desse grupo está a construtora Serveng. A geração de caixa cresceu substancialmente, segundo o levantamento do Cemec. Mas, comprovando a tese dos economistas, o desempenho é resultado de um forte enxugamento nas despesas fixas e na maior seletividade dos contratos conquistados – o que reduziu o tamanho da construtora. Em termos de faturamento e carteira de projetos, a empresa foi reduzida para 40% do que era antes da crise.

“Hoje as empresas vivem um outra realidade com um cenário muito diferente daquele do pré-crise”, afirma a professora do Insper, Juliana Inhasz. Para ela, a recessão fez com que muitas empresas repensassem suas estruturas e seus tamanhos. Mas, por ora, a professora não considera que a situação esteja confortável. “Ainda há muita dificuldade de se recolocar no mercado. O cenário está melhor porque a base era ruim.”

De qualquer forma, os economista vêem os números como uma sinalização positiva. A professora de finanças da Fundação Dom Cabral, Virginia Izabel de Oliveira, diz que a melhora dos indicadores pode provocar uma onda de otimismo e confiança que acabam fazendo a roda girar. “É um movimento lento, mas para cima. Isso faz com que os mercados se animem.”

Dívida externa

O economista José Roberto Afonso, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) e pesquisador do Ibre/FGV, destaca que a melhora na geração de caixa das empresas é resultado de uma maior produtividade, mas também de um profundo corte nos investimentos. Além disso, ele destaca que o forte ajuste feito pelas empresas desde o início da crise foi baseado muito em troca de dívidas. As companhias, afirma ele, substituíram empréstimos caros com bancos nacionais por captações no exterior ou emissões de títulos no mercado de capitais. 

Exemplo disso é que o porcentual de dívida em moeda estrangeira subiu de 2014 para cá entre as empresas de capital aberto – que são aquelas com maior capacidade de acessar o mercado internacional e o de capitais. Segundo o Cemec-Fipe, no pré-crise, 33,4% da dívida desse grupo de empresas era em moeda estrangeira. Agora esse porcentual está em 56,4%. Entre as companhias de capital fechado, o movimento não foi tão forte, tendo alta em 2017 e queda em 2018. Nesse caso, porém, as empresas maiores tiveram mais acesso ao mercado local, sobretudo com a emissão de debêntures que ficaram mais atraente com a queda dos juros. 

Para o professor Istvan Kasznar, da FGV/Ebape (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas), o resultado das empresas é apenas um alento diante do desempenho negativo dos últimos anos. “Os indicadores mostraram que elas estão menos piores, mas o problema da falta de demanda continua. A indústria, por exemplo, está longe de uma recuperação efetiva.” O professor afirma que, apesar da queda dos juros, o Brasil continua caro do ponto de visto do custo do dinheiro e do trabalho. “Mas há uma esperança de que, com a reforma da Previdência, a política fiscal melhore e a economia volte a crescer.”

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'Lição da crise é repensar seus modelos e forma de atuação'

Presidente da Brasil Brokers diz que empresa teve de rever suas estruturas durante recessão

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2019 | 05h00

O tombo do mercado imobiliário desde o início da crise econômica fez as empresas repensarem seus negócios e estruturas. A Brasil Brokers, que detém 22 imobiliárias em 11 Estados brasileiros, foi uma delas. Atualmente a empresa representa metade do que era antes da crise em termos de custo operacional e de pessoal. “Hoje temos uma estrutura mais enxuta”, afirma o presidente da companhia, Claudio Hermolin.

Ele conta que, como as demais empresas do setor, a Brasil Brokers sofreu com a crise. O volume de vendas diminuiu, o ticket das unidades caiu e as comissões – que são as receitas da empresa – desabaram. “Foi uma tempestade perfeita num momento em que o mercado estava com volume de lançamentos e de vendas muito elevado. O tombo foi grande.”

Nesse cenário, o executivo diz que a saída foi rever os processos, a estrutura e a estratégia de atuação. “Em momentos de euforia, temos poucas possibilidades para repensar o negócio porque a velocidade de venda é tão grande que não há tempo para parar e pensar se o que está sendo feito é o melhor. A grande lição que as crises trazem para as empresas é a possibilidade de repensar seus modelos e a forma de atuação.”

No auge da crise, entre 2016 e 2017, ele decidiu criar um novo plano para deixar a empresa menos sensível aos ciclos do mercado imobiliário, com a diversificação das receitas do grupo. Segundo Hermolin, os movimentos nos mercados de incorporação, aluguel de imóvel ou vendas avulsas são diferentes e podem representar ganhos para quem tiver bem posicionado. 

Na crise, como os preços tendem a cair, o mercado de locação pode ficar aquecido; mas quando o aluguel sobe, a compra de imóvel pode ficar mais vantajosa, explica o executivo. “Essa não foi a primeira nem a última crise que o mercado viveu. Então temos de aprender e nos preparar para as próximas.”

Novos negócios

Na linha de diversificação, a Brasil Brokers criou a Credimorar, uma plataforma de crédito imobiliário, responsável por 5% dos empréstimos no País. Segundo Hermolin, só neste ano, a empresa concedeu mais de R$ 1 bilhão em crédito imobiliário. “Em 2017, a empresa não existia e hoje já representa 35% da receita do grupo.”

Outro negócio que ganhou impulso na Brasil Brokers foi a Primais, uma empresa voltada para grandes operações, como a venda de prédios, shoppings e galpões logísticos. Depois de uma série de mudanças e investimentos, a companhia, que no passado contribuía com 5% das receitas, hoje é responsável por 15% do faturamento. “Colocamos mais executivos e reestruturamos o modelo de negócios que antes era focado em shoppings. Isso deu resultado.” Em 2019, diz o presidente do grupo, ela fez mais de R$ 700 milhões em negócios.

Hermolin afirma que, com a estrutura mais enxuta, tem conseguido reverter os resultados negativos. “No momento, estamos no break even operacional. Ou seja, geramos caixa para pagar a operação. Mas ainda não temos lucro. Esse é o nosso próximos objetivo.” 

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