Douglas Gavras/Estadão
Após deixar supermercado, Lucas está há quatro anos sem emprego formal. Douglas Gavras/Estadão

Desempregado longevo vira ‘obsoleto’

Profissionais experientes que ficam muito tempo longe do mercado, quando voltam, estão defasados; jovens também largam em desvantagem

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 04h00

O longo período fora do mercado deve afetar os trabalhadores pelos próximos anos, mesmo quando o desemprego voltar a cair. De acordo com economistas ouvidos pelo Estado, os profissionais mais experientes que ficaram muito tempo desempregados vão retornar defasados, enquanto os jovens que tentam entrar no mercado, largam em desvantagem em relação às gerações anteriores.

Lucas Reis, de 25 anos, teme não ter a carteira assinada tão cedo. Repositor em um supermercado, ficou desempregado há quatro anos e, desde então, foi obrigado a se virar vendendo água mineral e refrigerante próximo a estações de Metrô e trem em São Paulo. Ultimamente, até encontrar “bicos” tem sido mais difícil, ele conta.

“Se a gente pensar nas filas das agências e nas poucas vagas de emprego, não sai mais de casa. Eu só espero que as coisas melhorem um pouco e que o governo volte a fazer concursos. Parece algo distante, mas é preciso manter a esperança.”

No primeiro trimestre, o morador da Grande São Paulo estava, em média, há 46 semanas buscando trabalho, sem nem conseguir fazer um “bico”. No mesmo período de 2014, quando o País vivia o chamado pleno emprego, esse tempo era de 21 semanas, segundo pesquisa da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Os resultados acompanham a deterioração do mercado de trabalho. Na terça-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego no País era de 12,7%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua.

O medo do desemprego também voltou a subir nesse mesmo período. O índice mais recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) bateu em 57 pontos, acima de média histórica de 49,9 pontos.

O economista do Insper Sergio Firpo, que estudou o impacto da perda de emprego nos chefes de domicílio, é um dos que concordam que o aumento do tempo de recolocação de um profissional no mercado é muito preocupante. “Quem fica muito tempo desempregado tem uma depreciação de capital humano. Toda experiência antes acumulada fica obsoleta e, quando ele voltar ao mercado, a tecnologia terá mudado.”

Ele lembra que os jovens hoje também estão em desvantagem, em relação às outras gerações. “Muitos pararam a formação e não vão conseguir achar bons empregos lá na frente.”

 

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Desempregado leva quase um ano em busca de trabalho na Grande São Paulo

Tempo médio à procura de qualquer trabalho, seja uma vaga formal ou ‘bicos’, foi de 48 semanas em 2018, o dobro do registrado antes da crise; mesmo se reforma for aprovada e investimentos retornarem, mercado deve demorar a reagir, dizem analistas

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 04h00

Há mais de um ano, Rosilene Soares tenta voltar ao mercado de trabalho. A auxiliar de limpeza, de 46 anos, era contratada de uma empresa que prestava serviço terceirizado em edifícios comerciais, em São Paulo. No meio da crise, ela ficou desempregada. Os quatro filhos ajudam nas contas catando material reciclável para vender.

“Antes, quem trabalhava direitinho tinha sempre emprego garantido, as agências ligavam para oferecer vagas. Agora ficou muito ruim, nem consigo ser chamada para entrevistas”, conta, enquanto aguarda na longa fila de um dos Postos de Atendimento ao Trabalhador (PAT) da capital paulista. Para milhões de profissionais assim como ela, a peregrinação por agências de emprego virou rotina – com uma espera cada vez mais longa.

O tempo médio em que os desempregados da Grande São Paulo estão buscando trabalho foi recorde no ano passado, chegando a 48 semanas – quase um ano. Mesmo após o fim da recessão, 2018 teve o pior resultado da série histórica da pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em parceria com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), empatado com 2004.

Os dados mostram um aumento nos últimos quatro anos do tempo em que o trabalhador está no desemprego aberto – quando além de não achar uma vaga formal, não consegue fazer “bicos”. Em 2014, antes da recessão e com o mercado de trabalho aquecido, a situação era bem diferente: o trabalhador ficava a metade do tempo, 23,5 semanas, nessa condição. Em março, o dado mais recente, a busca por uma oportunidade demorava 44 semanas.

A economista da Fundação Seade, Paula Montagner, lembra que, geralmente, as pessoas que perdem o emprego e demoram para voltar ao mercado acabam dependendo de outros componentes da família para sobreviver. “Em 80% dos casos, as pessoas mais próximas acabam se virando para dar um suporte. Outros dependem de doações de igrejas ou da comunidade. Mas a situação é muito precária.”

Ela avalia que, mesmo se houver uma volta nos investimentos, com a aprovação de reformas, ainda vai levar tempo para que o mercado de trabalho se recupere. “Ao se considerar as crises das décadas de 1980 e 1990, era possível observar que as medidas econômicas levavam de seis a oito meses para surtir efeito no emprego. Infelizmente, as pessoas já estão há muito tempo nessa condição.”

Já o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central Luis Eduardo Assis avalia que passou da hora de o governo transformar a geração de empregos em prioridade. “Enquanto o governo aprende a fazer política, a economia se deteriora. Até agora, a massa sem trabalho espera pacientemente alguma medida, mas até quando vai esperar?”

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