Desempregados exigem que Duhalde cumpra promessas

O governo argentino foi sacudido hoje pelo segundo protesto popular em menos de três dias. Cerca de 3.000 desempregados e sindicalistas percorreram 30 quilômetros desde La Matanza, no interior da província de Buenos Aires, para se concentrarem diante da Casa Rosada. Ali, pediram o cumprimento da promessa de criação de um milhão de postos de trabalho, o aumento do salário mínimo e a distribuição de alimentos. A 50 metros dessa concentração, o Ministério da Economia confirmou o anúncio do pacote econômico no próximo sábado - depois da revisão por Claudio Loser, diretor do FMI para o Hemisfério Ocidental, que desembarca quarta-feira no país. Ao longo do dia, o governo tentou amortecer o impacto da marcha e de suas exigências. O presidente Eduardo Duhalde comprometeu-se a receber seus líderes amanhã, mas os colocou antecipadamente em contato com autoridades dos ministérios do Trabalho e do Interior. Pela manhã, Duhalde preferiu manter o encontro já marcado com Hugo Moyano, o presidente da ala dissidente da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), o braço sindical do peronismo. Moyano saiu da reunião declarando que dará tempo ao governo e o apoiará se forem adotadas as medidas corretas. Sem incidentes registrados até o início da noite, a marcha trouxe à Praça de Maio cobranças econômicas e sociais diferentes daquelas apresentadas pela classe média de Buenos Aires nos seus panelaços. As queixas se concentraram na taxa de desemprego, estimada em 20%, e no aumento da pobreza e não, diretamente, nos depósitos presos no curralzinho. Ao longo do trajeto, centenas de moradores dos bairros mais pobres da Grande Buenos Aires foram se incorporando à passeata. A forma de expressão também foi distinta. Prevaleceram os bumbos e os discursos, que são os alardes típicos do sindicalismo argentino, em vez do ruído agudo do alumínio. Dos panelaços, foi resgatado apenas o refrão ?Que vá todo mundo embora, que não fique nem um só?. ?Estamos fartos de nos pedirem tempo. Todos os governos pedem o mesmo. Todos os que estão hoje no governo tiveram poder no país antes e, agora, falam como se tivessem vindo da lua. Pedem ao povo que aperte os cintos e não aos que se beneficiam desta política econômica?, afirmou Juan Carlos Alderete, um dos líderes da Corrente Classista Combativa (CCC). A marcha alcançou a Praça de Maio em um momento delicado para o governo argentino. Em Buenos Aires, a equipe do ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, trabalha a toque de caixa na conclusão do projeto de Orçamento para 2002 - uma peça que vai expor o programa de ajuste fiscal e que depende de um apoio mais consistente dos governadores. Também tenta fechar, antes de sábado, o seu plano econômico, que envolverá a diminuição do prazo de três anos para a liberação de todo o dinheiro preso no curralzinho, a pesificação total da economia, a reestruturação do sistema financeiro e a flutuação do câmbio. Porém, a mesma equipe se mostra consciente de que a implementação desse plano dependerá do pacote de socorro que o FMI, outros organismos internacionais e os países mais ricos possam destinar à Argentina. Em Washington, o chanceler argentino, Carlos Ruckauf, tentará obter algum gesto favorável do secretário americano do Tesouro, Paul O?Neill, com relação ao apoio político dos Estados Unidos a um acordo entre o FMI e a Argentina. Ainda nesta semana, uma nova missão do Fundo a terceira, neste mês desembarca em Buenos Aires para esmiuçar os números oficiais das áreas fiscal, monetária e cambial. A equipe econômica, entretanto, ainda não demonstra clareza sobre as medidas que pretende incluir no plano. Em entrevista a uma rádio local, o secretário da Fazenda, Oscar Lamberto, afirmou que o governo deverá emitir um bônus, em pesos, que será entregue aos bancos, como forma de garantir uma liberação mais volumosa dos recursos do curralzinho. Por meio de outra rádio, o vice-ministro da Economia, Jorge Todesca, declarava que essa medida não estava em estudos. A alternativa em estudo, segundo Todesca, seria a emissão de bônus para cobrir o prejuízo que os bancos vão acumular com a conversão de depósitos e de créditos para pesos conforme taxas de câmbio diferentes. Em princípio, as dívidas seguirão a paridade um dólar, um peso. Os depósitos serão corrigidos pelo câmbio oficial 1,40 peso por dólar. Consciente do alto potencial de erro de cada decisão que venha a tomar, a equipe econômica está se escudando na própria disposição demonstrada pelo corpo técnico do FMI de colaborar com a elaboração dos planos, em vez de desaprová-los depois de prontos. Daí a decisão de Loser de vir, na próxima quarta-feira, a Buenos Aires, e aproveitar suas 48 horas de permanência para conversar também com empresários. A equipe econômica também está buscando cada vez mais o aconselhamento de especialistas mundo afora. O ministro Remes Lenicov mantém contatos telefônicos freqüentes com os presidentes do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga, e do Chile, Carlos Massud, conforme informou sua assessoria. Da mesma forma, estão sendo consultados o ex-presidente do Banco Central mexicano Miguel Mansera Aguayo e autoridades da Coréia e da Indonésia. A perspectiva é de que, ao final da peregrinação de Ruckauf no exterior, possam ser incluídos nesse esse grupo representantes do Tesouro dos Estados Unidos e da Espanha. Leia o especial

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