Tiago Queiroz/Estadão
Homem busca emprego no Núcleo de Convivência para Adultos, conhecido como ‘Chá do Padre’, na Sé, em São Paulo. Tiago Queiroz/Estadão

Desemprego bate em 14,7% e atinge recorde de 14,8 milhões de brasileiros

Segundo IBGE, só entre dezembro passado e março deste ano, 880 mil perderam os seus empregos; para especialistas, índice deve registrar recuperação até o fim do ano, mas em ritmo ainda insuficiente para recompor vagas perdidas

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 09h16
Atualizado 28 de maio de 2021 | 11h58

Apesar dos sinais de recuperação da atividade econômica no primeiro trimestre, a taxa de desemprego no período subiu para 14,7%, ante 13,9% no fechamento de 2020, levando o total de desempregados no País a 14,805 milhões. Tanto o índice quanto o contingente de desocupados são os maiores de todos os trimestres da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012. Só no intervalo entre dezembro e março, 880 mil pessoas a mais passaram a buscar uma vaga no mercado de trabalho. 

“A Pnad retrata um mercado de trabalho enfraquecido, com taxa de desemprego nas máximas históricas. E, olhando qualitativamente, uma série de indicadores corrobora essa visão, com desalento também elevado. Não há ocupação suficiente para esses trabalhadores, e eles estão perdendo o ímpeto de procurar emprego”, afirma o economista sênior do Banco ABC Brasil, Daniel Xavier.

Se forem considerados todos os brasileiros que estão subutilizados, faltou trabalho para inéditos 33,202 milhões no País no primeiro trimestre. Essa conta inclui quem busca emprego, quem trabalha menos horas do que gostaria e poderia e ainda os que estão disponíveis para trabalhar, embora não estejam buscando vaga – caso dos chamados desalentados. É um número equivalente ao da população de países como Peru ou Angola.

Para Lucas Assis, analista da Tendências Consultoria Integrada, o mercado de trabalho foi afetado pela dispensa de trabalhadores temporários contratados no fim do último ano, mas também pelas restrições ao funcionamento das atividades em função da pandemia. Por outro lado, as políticas de isolamento social relativamente mais brandas e o fim temporário do auxílio emergencial ampliaram a oferta de mão de obra, justificou o analista da Tendências, que prevê uma taxa de desocupação média de 14% em 2021, acima dos 13,5% registrados em 2020.

Assis reconhece o risco de possíveis instabilidades, como uma eventual terceira onda de covid-19, mas prevê geração de vagas nos próximos meses em decorrência da maior resiliência da atividade econômica doméstica e de políticas de governo, como a renovação do programa de manutenção do emprego e renda.

“Aumentar a desocupação no primeiro trimestre de cada ano não é uma situação específica deste ano de 2021, é um comportamento relativamente esperado para este momento do ano. O que a gente tem é que essa sazonalidade pode estar sendo reforçada pelo acúmulo que a gente vem tendo ao longo de 2020 de uma queda muito significativa de pessoas ocupadas”, diz Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE. “Os que contribuíram para o aumento na desocupação foram as mulheres, foram pretos e pardos e, em termos regionais, foram Norte e Nordeste do País.”

Pelos dados do IBGE, a população ocupada somou 85,650 milhões de pessoas no primeiro trimestre, 529 mil a menos em um trimestre. Em relação a um ano antes, 6,573 milhões de trabalhadores perderam seus empregos. Em relatório, a XP Investimentos afirmou esperar melhora em ritmo moderado do emprego nos próximos meses, mas ainda assim prevê que a população ocupada só vai retornar aos níveis pré-pandemia ao fim de 2022.

Inativos

A taxa de desemprego no trimestre só não foi maior porque a população inativa aumentou em 225 mil pessoas no período. Em relação ao mesmo período de 2020, esse número cresceu em 9,202 milhões.

Segundo especialistas, a melhora do mercado vai depender da capacidade da economia interna de gerar postos de trabalho em quantidade suficiente para absorver toda essa mão de obra que deve voltar a ficar disponível nos próximos meses. A estabilidade da chamada taxa de participação – que mostra a proporção de pessoas em idade de trabalhar participando efetivamente do mercado de trabalho – foi destacada pelo economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV). Ele já esperava um aumento do retorno dos inativos em busca de emprego. 

“(A taxa de participação) Está parada desde novembro, as pessoas não estão voltando ao mercado de trabalho. É algo bastante atípico. Está cinco pontos porcentuais abaixo do pré-pandemia”, diz ele, que espera que a taxa de desemprego ainda avance nas próximas leituras da Pnad Contínua, encerrando o ano de 2021 com uma média de 14,8%.

A taxa de desocupação alcançou patamar recorde em 12 das 27 unidades da Federação no primeiro trimestre: Rondônia (11,4%), Tocantins (16,3%), Maranhão (17,0%), Piauí (14,5%), Ceará (15,1%), Pernambuco (21,3%), Alagoas (20,0%), Sergipe (20,9%), Bahia (21,3%), Minas Gerais (13,8%), Rio de Janeiro (19,4%) e Goiás (13,5%). No Estado de São Paulo, a taxa de desemprego ficou em 14,6%.

'Penso todo dia em desistir'

Há dois anos desempregado, o estudante Welton Miranda, 19 anos, vive com a mãe, o irmão e o padrasto na região do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. 

Com toda a família sem emprego, a renda familiar depende do valor recebido no auxílio emergencial e de alguns “bicos”.

No terceiro semestre de engenharia mecatrônica, o estudante tem buscado oportunidades, mas, enquanto, não encontra uma vaga, segue aceitando trabalhos temporários. 

“A minha área de interesse é a robótica industrial, mas eu tenho feito de tudo, freelancer em restaurante, ajudante de pedreiro, ajudante de cozinha, o que tiver”, explicou o estudante universitário. 

Sem nenhuma perspectiva de retorno dos processos seletivos em que se inscreveu até agora, Miranda já cogita não procurar mais emprego, pelo menos por enquanto. 

“Eu penso todo dia em desistir, porque é cansativo sempre fazer entrevista e nunca receber uma ligação dizendo que fui aprovado”, disse. 

'O que Deus mandar, estou aceitando'

Com dois filhos adolescentes e precisando sustentar a casa sozinha, Tamires Albuquerque, de 33 anos, ficou desempregada após o fechamento do salão de beleza em que trabalhava como manicure. 

Moradora da comunidade do Vigário, no Rio de Janeiro, Tamires passou a manter a renda com ajuda do auxílio emergencial do Estado. As parcelas são de R$ 200. 

Apesar da ajuda, não consegue garantir todas as compras do mês e está procurando emprego para qualquer tipo de serviço. Ela, que antes não trabalhava com carteira assinada, segue procurando pequenos serviços, como manicure em domicílio. Uma das suas angústias é assegurar as compras alimentícias do mês.

“Com o auxílio emergencial está dando para manter algumas coisas, mas está difícil. Eu estou procurando emprego, mas estão mandando mais embora do que contratando. Estou procurando tudo, o que Deus mandar para mim, estou aceitando”, disse.

/ COLABORARAM GUILHERME BIANCHINI, THAÍS BARCELLOS, ÉRIKA MOTODA, WESLEY GONSALVES, JULLIE PEREIRA DA SILVA e SARAH DE PAULA AMERICO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Taxa de desemprego vai continuar aumentando até setembro e chegar a 15,5%', diz economista

Para Bruno Ottoni, desemprego recorde de 14,7% no 1º trimestre do ano deixa bem claro que o mercado de trabalho ainda está muito fragilizado

Entrevista com

Bruno Ottoni, economista e pesquisador do Ibre/FGV e IDados

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 19h40
Atualizado 28 de maio de 2021 | 11h59

Correções: 28/05/2021 | 11h59

O recorde de desemprego verificado em março tende a ser superado até setembro, e chegar a 15,5% da população em idade para trabalhar, prevê Bruno Ottoni, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e da consultoria IDados.

Pelo seus cálculos, que levam em conta a antiga Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita a partir de 1992, e depois substituída pela Pnad Contínua, em 2012, a taxa atual e o total de desempregados, de 14,8 milhões de pessoas, são os maiores em quase 30 anos. A seguir, trechos da entrevista.

Qual sua avaliação sobre os dados divulgados pelo IBGE?

Os números deixam bem claro que o mercado de trabalho está muito fragilizado. O que me chama a atenção é que essa taxa de 14,7% de desemprego é recorde não só em relação à série da Pnad Contínua, que começa em 2012, mas também em relação à série antiga, que era anual e começou em agosto 1992. Se retroagirmos os dados compatíveis com base na série que o Ibre criou para analisar o desemprego passado, vamos ver que é a maior taxa desde aquele período. 

O que deve ocorrer daqui para frente com o emprego no País?

Minha projeção é de que a taxa de desemprego vai continuar aumentando até setembro e chegar a 15,5%. Daí em diante pode ser que o cenário comece a melhorar, mas vai depender de como avança a vacinação e o crescimento econômico. Se a vacinação deslanchar mais rapidamente podemos ter um terceiro trimestre razoável e chegar ao fim do ano com taxa de desemprego de 14,6%. 

Há chances de uma recuperação da economia?

Há um crescimento econômico nesse início de ano que está surpreendendo positivamente alguns analistas, mas não é um crescimento suficiente para absorver todas as pessoas que saíram do mercado de trabalho. Muitas voltaram a procurar emprego pois não podem mais ficar em casa, precisam de sustento, por isso também que a taxa aumentou. O isolamento está caindo mesmo no auge da pandemia.

O Caged divulgado na quarta-feira mostra saldo positivo na criação de empregos formais. Isso tende a continuar?

O Caged é uma parte pequena do mercado de trabalho (envolve trabalhadores com carteira assinada), enquanto a Pnad é um retrato mais amplo. Mesmo que continue crescendo, não será suficiente para alterar de forma significativa esse quadro do mercado de trabalho porque muita gente está desempregada. E temos também recorde de desalentados e milhões de pessoas que estão fora da força de trabalho potencial.

Uma eventual recuperação até o fim do ano deverá gerar mais vagas formais ou informais?

Acredito que vamos ter um quadro de emprego com carteira assinada subindo, mas um quadro de emprego informal subindo mais. É comum em momentos de recuperação que as pessoas primeiro conseguem empregos informais e depois transitam para formais. Ainda mais numa situação atual, de elevada incerteza. A tendência é que empregador contrate informalmente pois, se tiver uma surpresa negativa tem custo zero de demitir. Mas se a recuperação se manter, se a economia começar a crescer e a incerteza começar a se dissipar, mais para frente o emprego se converte em formal.

 

Correções
28/05/2021 | 11h59

O economista Bruno Ottoni informou que o pico do desemprego deve ser alcançado em setembro, e não em junho, como publicado anteriormente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.