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'Desemprego cai mesmo com baixo crescimento'

Relatório de banco suíço aponta melhora no mercado de trabalho, apesar do desempenho fraco da economia

Entrevista com

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h05

O banco Credit Suisse é um dos participantes do mercado financeiro com a menor projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano: 2,5%. Mesmo assim, os analistas da instituição acreditam que a taxa de desemprego não vai piorar ao longo do ano. Ao contrário, pode até recuar para menos do que os 5,7% de fevereiro.

Para decifrar a aparente contradição entre expansão modesta da economia e mercado de trabalho ainda aquecido, o economista-chefe do banco no Brasil, Nilson Teixeira, recorre a dados sobre a População em Idade Ativa (PIA), que vem caindo substancialmente nos últimos anos.

"O crescimento do PIB necessário para manter a taxa de desemprego estável é menor hoje do que anos atrás", afirmou Teixeira.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Os srs. afirmam que o Brasil não precisa ter forte crescimento econômico para que a taxa de desemprego permaneça baixa. Por quê?

Nos últimos 16 anos, vem ocorrendo uma modificação importante no crescimento da População em Idade Ativa (PIA). Entre 1995 e 1999, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a PIA crescia em torno de 2% ao ano. De 2000 a 2004, o ritmo caiu para 1,5%. De 2005 a 2009, foi para 1,4%. De 2010 a 2014, segundo estimativa do próprio IBGE, o crescimento esperado é de 1,2%. De 2015 a 2019, de 0,8% e, de 2020 a 2024, 0,3%. A partir de 2024, o crescimento esperado é de zero. O que se percebe, com isso, é que o crescimento do PIB necessário para manter a taxa de desemprego estável é menor hoje do que anos atrás. Em 2005, por exemplo, para mantermos a taxa estável, precisávamos de uma expansão da ordem de 3%. No fim de 2011, o crescimento necessário ia de 1,2% a 2%, dependendo do cálculo utilizado. Digamos que esteja mais para 2%. Significa que, hoje, um crescimento dessa magnitude seria suficiente para manter a taxa de desemprego estável. Como projetamos a alta do PIB deste ano em 2,5%, o desemprego vai diminuir um pouquinho ou ficar estável. Em 2013, como esperamos um crescimento do PIB mais forte, é natural projetar que a taxa de desemprego diminuirá. Para este ano, estimamos que a média será de 5,8%, pouco abaixo dos 6% de 2011. Para o ano que vem, projetamos média de 5,2%.

Os srs. projetam uma expansão do PIB neste ano inferior à média do mercado. Por quê?

A nossa leitura, desde o ano passado, é de que a economia passaria por uma desaceleração importante e teria uma retomada gradual. Mas o terceiro trimestre de 2011 foi ainda mais frágil do que imaginávamos. O quarto trimestre idem. Neste primeiro trimestre de 2012, as indicações são de um crescimento em torno de 0,5%, 0,6%. Para conseguirmos chegar aos 3,3% no ano, média do mercado hoje, precisaríamos crescer nos outros trimestres algo como 1,6%. Em ritmo anualizado, seria cerca de 6,5%. Isso é muito próximo à média que observamos entre o terceiro trimestre de 2006 e o terceiro trimestre de 2008. Foi uma época em que havia estímulos muito fortes à economia - crédito e o próprio desempenho da economia global. Hoje, esses estímulos não estão presentes. Para a massa salarial, por exemplo, esperamos para este ano um crescimento de 5%, sendo 3,2% dos salários e 1,7% na quantidade de população ocupada. Também são números inferiores aos daquele período.

Por que a massa e os salários continuam crescendo acima da expansão projetada para o PIB?

O crescimento do PIB não está relacionado exclusivamente à mão de obra. Há outros componentes, como a produtividade total dos fatores. O ponto, aqui, é que projetamos um crescimento do consumo das famílias de 3,5%, superior, portanto, ao PIB. Só que o vazamento externo aumenta. Ou seja, a contribuição do setor externo para o PIB tende a se tornar mais negativa (por causa do aumento das importações). Vale ressaltar que a alta do PIB de 2,5% no ano não é ruim porque, no segundo semestre, o País crescerá cerca de 4% em termos anualizados.

O quadro do emprego é inflacionário?

Há uma percepção de parte importante do mercado de que o aumento dos salários reais é muito superior ao crescimento da produtividade. Muitos associam a uma ideia de termos carência de mão de obra, notadamente mão de obra especializada, o que levaria a um aumento importante da inflação. Sobre isso, temos duas observações. Em primeiro lugar, os dados a que temos acesso na pesquisa mensal do IBGE não nos permitem ver que as categorias com maior nível de escolaridade (onde supostamente falta mão de obra) apresentem aumentos muito expressivos. Mais do que isso: nossos trabalhos mostram que os reajustes daqueles que recebem os menores salários - e têm os graus de escolaridade mais baixos - são bem superiores ao resto. Por fim, a argumentação de falta de mão de obra nos parece muito mais episódica e conjuntural do que estrutural. Essa história de que o exército de reserva teria se esgotado não é compatível com os dados existentes. Você vai a vários locais do Brasil e percebe que ainda há cobradores de ônibus. Vai aos mercados e nota os rapazes que ensacam as compras. O que vemos é uma mudança que acompanha o rápido processo de alteração da distribuição de renda no Brasil.

Alguns analistas têm falado em pleno emprego no País. O sr. concorda?

Temos uma quantidade muito expressiva de pessoas no trabalho doméstico. Muito mais do que em países desenvolvidos. Esse é um dos fatores que mostram que ainda há um ajustamento do mercado de trabalho. Portanto, não achamos que há pleno emprego. O que temos é que, quanto menor é a taxa de desemprego, mais próximos (ou além) do pleno emprego estamos. Mas qual é o número? 5%, 6%? Anos atrás, muita gente achava que era 8%. Hoje há quem fale em 6%. Mas será que é 5%? Não dá para saber. O fato é que, comparando com países desenvolvidos, muitos brasileiros ainda precisam se deslocar para segmentos do mercado de trabalho que permitam um aumento da produtividade mais expressivo.

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