Desemprego de longo período atinge 3,74 milhões nos EUA

Grupo de trabalhadores que não encontra vaga há mais de seis meses representa 36% de desempregados americanos e revela limites da recuperação

Cláudia Trevisan - Correspondente de O Estado de S. Paulo ,

26 de abril de 2014 | 10h42

Fila de desempregados em rua de Nova York: 3,7 milhões em busca de vagas há mais de seis meses (Foto:NYT)

WASHINGTON - A Grande Recessão americana terminou oficialmente em junho de 2009, mas para Chris M. ela chegou em outubro de 2010, quando ele foi demitido. Depois de uma carreira de 20 anos em vendas, Chris entrou para o universo dos que permanecem desempregados por mais de seis meses, fenômeno que revela os limites do crescimento do país e distingue a atual recuperação de outras experimentadas pelos EUA.

O grupo dos que estão sem trabalho por longo período representa 36% dos desempregados americanos. São 3,74 milhões de pessoas que buscam vagas há mais de seis meses, sem sucesso. Na recessão do início dos anos 80, eles chegaram ao máximo de 26% do total. Depois do estouro da bolha da internet, no começo da década passada, sua participação não passava de 24%.

O desemprego de longo prazo é um dos fatores distintivos da Grande Recessão, que ao mesmo tempo reflete e ajuda a explicar o lento processo de reação da economia. A falta de trabalho afeta o poder de consumo e deprime a confiança dessa parcela da população.

Quando foi demitido, Chris acreditava que iria conseguir uma recolocação em poucas semanas, mas ela só veio 18 meses depois. Para sobreviver, ele refinanciou a hipoteca de sua casa, que havia se valorizado depois do fim da crise, e conseguiu colocar alguns milhares de dólares no bolso.

A nova de posição durou pouco mais de um ano. Em agosto de 2013, Chris estava sem trabalho pela segunda vez. Esse é um padrão comum aos desempregados por longos períodos, que enfrentam dificuldades para encontrar vagas estáveis depois de meses fora do mercado de trabalho.

Em outubro, Chris conseguiu uma colocação temporária como consultor, que chegou ao fim em janeiro. Desde então, vive de suas economias e dos US$ 375 que recebe a cada semana do seguro-desemprego.

"A crise mudou de maneira drástica o mercado de trabalho. Há mais pessoas procurando vagas e menos empregos. É um caminho árduo", disse Chris ao Estado. Nos oito meses que se passaram desde que perdeu seu último emprego estável, ele recebeu uma única proposta de trabalho, da mesma empresa para a qual fez a consultoria. Salário: US$ 30 mil anuais mais comissões, sem nenhum benefício. É menos da metade dos US$ 75 mil, mais US$ 10 mil de bônus, que ganhava na função que perdeu em agosto.

"Em razão da valorização nas Bolsas de Valores, os altos salários se recuperaram, mas para os demais, eles estão estagnados", observou a economista Anastasia Christman, do National Employment Law Project (Nelp), entidade que acompanha o mercado de trabalho nos EUA. Segundo ela, a situação é mais difícil para a faixa de rendimentos médios: "Os que conseguem encontrar emprego em geral ganham menos do que antes da crise".

Chris recusou a oferta e decidiu se concentrar na busca de trabalho, na esperança de encontrar uma colocação que ofereça benefícios e permita que ele pague suas contas. "Só em seguro-saúde eu gasto US$ 400 por mês. Antes, a empresa cobria tudo." A hipoteca da casa consome mais US$ 1.600 mensais. Somados, os dois gastos representam US$ 24 mil anuais.

Desalento. Estudo divulgado em março pelos economistas Alan Krueger, Judd Cramer e David Cho, da Universidade Princeton, mostra que os desempregados há mais de seis meses tendem com o tempo a ficar à margem do mercado de trabalho.

Entrevistas com pessoas nessa situação mostraram que, depois de 15 meses, apenas 11% haviam conseguido empregos estáveis. Outros 25% tiveram ocupações temporárias ou de meio período, 30% continuavam a procurar emprego e 34% haviam desistido.

O chamado desalento ajuda a explicar outra característica da atual recuperação americana, o encolhimento da força de trabalho, que tem confundido economistas e integrantes do Federal Reserve, responsáveis pela política monetária do maior PIB do mundo.

O índice de participação na força de trabalho está no mais baixo patamar em três décadas, o que permitiu que o desemprego caísse em meses recentes mesmo sem a criação do número de vagas que seria necessário para que esse movimento ocorresse, caso não houvesse o encolhimento do universo dos que estão em busca de vagas.

Em março, 63,2% da população economicamente ativa estava na força de trabalho, uma queda de 3,0 ponto porcentual em relação a igual mês de 2007, o ano que antecedeu à quebra do banco Lehman Brothers. Patamares próximos de 63% existiam no fim do anos 70, mas naquela época o indicador estava em alta. Agora, a tendência é de queda.

Há seis anos, 78 milhões de americanos estavam fora da força de trabalho. No mês passado, esse universo era de 91 milhões, um aumento de 13 milhões de pessoas. No mesmo período, o número dos que estão na força de trabalho cresceu apenas 3,2 milhões, para 156 milhões, no mais longo período de estagnação desde 1948, quando o dado começou a ser divulgado.

A dúvida é se os americanos deixaram o mercado por mudanças demográficas estruturais - como aposentadoria -, pelo desalento, ou por ambas as razões.

A resposta a essa pergunta é crucial para o Fed decidir o ritmo de normalização de sua política monetária. Se o encolhimento é resultado de questões estruturais, o impacto da retirada dos estímulos sobre o emprego tende a ser menor. Mas se a principal razão for o desalento, isso é um sinal de que o mercado de trabalho continua frágil e pode sofrer sem o apoio do Fed.

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