Desemprego é lado mais sombrio da crise

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Desemprego é lado mais sombrio da crise

Falta de perspectivas no mercado de trabalho persiste e ainda assusta milhões de brasileiros

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2017 | 09h32

Por 13 anos, Roberval Onório conferiu as cargas e descargas dos navios de uma empresa espanhola que operava no porto de Santos. "Era muito movimento, a gente não parava um minuto. De uma hora para outra, comecei a ver o trabalho diminuir e os colegas indo embora. Só que a empresa não aguentou e desistiu de operar no porto. Até me chamaram para uma outra função no Paraná, onde eles têm uma equipe reduzida, mas tive de ficar para cuidar de uma tia. Às vezes, evito lembrar de como gostava de lá. É muito triste", conta o operador, de 46 anos. 

O desemprego, que assusta o País, tem rosto. Sem oportunidades e vendo as dívidas se multiplicarem, Onório e milhões de brasileiros têm sentido o pior da crise. 

Maria Vieira da Silva, de 42 anos, também entrou para as estatísticas do desemprego. Ela trabalhou por quase uma década como balconista em uma padaria na capital paulista. "Agora, vou ter de procurar outra coisa. O setor de alimentos sofreu menos que os demais, porque as pessoas cortam tudo antes de mexer no café da manhã, mas também sofreu. A gente percebia que o movimento tinha caído muito."

Agora, a cearense procura uma outra função no comércio. Só não pode ficar sem trabalhar, tem de ajudar a sustentar a filha, que mora com ela. "Mas quero outro tipo de loja. Trabalhava de domingo a domingo, era muito pesado. De repente, foi melhor assim."   

Aos 44 anos, Maurício Arnaldo de Souza cogita se cadastrar em aplicativos de transporte de passageiros, como o Uber, para conseguir pagar as contas. Ele, que trabalhava como vendedor na área de construção, teve de deixar a empresa após cinco anos. "A gente já percebia que os negócios estavam fracos, cerca de 30% dos funcionários foram demitidos. Tenho pego serviços como autônomo, feito entrevistas, mas nada de concreto até agora, só esperança."

Se o corte de vagas não poupa nem quem tem experiência, para quem busca a primeira oportunidade bem no meio da crise, a situação também não é nada fácil.

Luísa Novaes do Nascimento tem 18 anos e vai entrar no mercado de trabalho. Ou tenta. Na fila para tirar sua primeira carteira profissional, em uma agência do Poupatempo no centro de São Paulo, ela faz as contas de quantas conversas sobre as dificuldades dos tempos atuais de crise teve com o pai, advogado, nos últimos meses. 

"É estranho, ao mesmo tempo em que saí da escola para buscar o primeiro emprego cheia de ansiedade, sei que não vai ser fácil conseguir nada agora, sem experiência, quando pessoas com 20, 30 anos na mesma empresa são mandadas embora e aceitam trabalhar por menos."   

CRESCE DESEMPREGO ENTRE APOSENTADOS

O emprego ainda parece uma realidade distante, mas seus primeiros salários já têm destino certo: ela vai dividir os futuros rendimentos entre uma poupança para pagar a faculdade, de psicologia, e um fundo para bancar um intercâmbio na Austrália. "Dependendo de como for lá, nem volto. Todo mundo fala que é um país de muitas oportunidades para os jovens, tudo o que eu não encontro aqui agora."

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