Desemprego e treinamento
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Desemprego e treinamento

Com a pandemia acelerando o processo de transição tecnológica em vários setores, especialistas apontam que o Brasil precisa qualificar mão de obra especializada e gerar empregos em áreas que aumentem a produtividade do País

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2021 | 20h31

Na edição desta quinta-feira, esta Coluna tratou da enorme destruição de postos de trabalho que vem sendo produzida tanto pelas inovações tecnológicas quanto pelo processo de transição de substituição de energia dos combustíveis fósseis para fontes limpas.

O especialista em Economia do Trabalho José Pastore está de pleno acordo em que esse fechamento de postos de trabalho vem acontecendo. Só não aceita a afirmação sem a necessária confirmação de que a criação de novos empregos não se dê na mesma proporção do fechamento dos anteriores.

"Tudo depende do vigor do crescimento econômico e da qualidade da educação. Japão, Estados Unidos e Alemanha são países que incorporaram um volume brutal de tecnologia e, antes da pandemia, exibiam os menores índices de desemprego do mundo", explica o professor da USP e membro da Academia Paulista de Letras.

Pastore adverte que é preciso – a um só tempo – mudar os sistemas de ensino e intensificar os projetos de qualificação e reinserção da mão de obra no mercado de trabalho em rápida transformação.

É tarefa difícil. Os desafios nessa área são enormes e não muito claros. Luis Claudio Kubota, técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), observa que, no Brasil, as novas gerações são mais escolarizadas do que as de seus pais e avós. No entanto, isso não vem melhorando as estatísticas de produtividade. Por quê? Porque essa maior escolaridade não atende aos empregos que estão disponíveis ou aos que estão sendo criados. A nova geração vai para funções de baixa qualificação que não acusam melhor produtividade.

“O desafio para o Brasil é criar empregos que consigam capturar essa melhor escolarização dos jovens. O que temos visto nos últimos anos, apesar da pandemia ser um fator totalmente exógeno e inesperado, é o crescimento da gig economy, que atrai uma ampla gama de trabalhadores freelancers, que também não vislumbra grande aumento de produtividade”, diz Kubota.

O dado novo é o de que "a pandemia produziu um cataclismo no ensino", pois parte dos estudantes não tem acesso à internet  e não pode aproveitar as vantagens da educação a distância. Muitos agora tendem a abandonar a escola. Isso significa que, até mesmo antes de criar sistemas mais eficientes de treinamento, será preciso recuperar o prejuízo do aprendizado e atrair esses excluídos de volta às salas de aula. Afora isso, é preciso qualificar esses jovens para que possam operar sob as novas tecnologias e nos postos de trabalho que serão formados na esteira da transição energética.

Como afirma Fausto Augusto Júnior, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a implantação de novas tecnologias vem a tal velocidade que não haverá tempo para qualificar a atual geração de trabalhadores. Vai ser preciso esperar a próxima e, enquanto isso, conviver com as demissões: “O caixa do supermercado que sobrou pela implementação do caixa de autoatendimento não conseguirá ser capacitado para desenvolver ou operar esses sistemas. Ele acabará sendo deslocado para um trabalho manual de qualificação ainda mais baixa ou para o trabalho informal. Ou seja, haverá um descasamento temporal".

Fausto explica que esse descasamento cresceu com a pandemia, pois vários setores intensificaram a inserção de novas tecnologias no período, principalmente para dar conta da continuidade das operações com as restrições impostas pelo isolamento social.

“É importante termos consciência desse processo de aceleração da transição tecnológica; entender que ele é dinâmico – a entrada de tecnologia em cada setor tem uma lógica diferente; e, por fim, é preciso ter planejamento para resolver a questão de ausência de mão de obra qualificada.” Por isso, é preciso planejamento para atender às novas necessidades educacionais e profissionalizantes.

O diabo é que não se vê no governo nenhuma atenção para o enfrentamento do problema./ COM PABLO SANTANA

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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