Desemprego em um nível historicamente baixo

A taxa de desocupação em setembro atingiu o nível de 6,2%, o mais baixo da série iniciada em 2002. Descontados os efeitos sazonais, a taxa também é a menor da série (6,4%). Ademais, nas duas séries (com e sem ajuste), a taxa vem caindo monotonamente desde junho. E, desde então, a taxa cai porque as pessoas que entram no mercado em busca de ocupação são em número inferior ao das que conseguem ocupação.

Análise: José Francisco de Lima Gonçalves, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

Esse excesso de pessoas que consegue ocupação em relação ao total de pessoas que busca ocupação significa, no curto prazo (em que os aumentos de produtividade são desprezíveis), que a remuneração das pessoas ocupadas tende a se elevar, como de fato está se elevando em termos reais.

A renda real habitualmente recebida aumentou quase 7% esse ano, sendo 4% nos últimos quatro meses.

O rendimento real está aumentando nos últimos três meses, ainda que a taxas decrescentes. Esse aumento de renda está concentrado nos setores de serviços da economia, com a indústria tendo pago aumentos bem menores.

A explicação da diferença é que a indústria recompôs seu nível de emprego rapidamente depois da crise e sofre com a concorrência das importações e com o efeito do câmbio sobre suas exportações.

Já as atividades de serviços (cerca de 50% da ocupação) são preponderantemente imunes à concorrência externa e sofrem apenas indiretamente na medida em que a indústria cresce menos e demande menos serviços.

Cerca de 50% da população ocupada está desfrutando de renda real crescente, o que, junto à expansão do crédito, estimula uma demanda que vem sendo suprida pela produção doméstica e pelas importações. Somada ao atual choque de preços agrícolas, tal pressão de salários, ainda que heterogênea, pode chegar aos preços.

Os juros altos pressionam o câmbio, mas talvez sejam baixos para conter a inflação. Dois resultados de que ninguém gosta. Alguém gosta de um corte de gastos públicos que reduza a demanda e as taxas de juros, viabilizando câmbio e inflação palatáveis?

É DOUTOR EM ECONOMIA PELA UNICAMP, PROFESSOR DO DEPTO DE ECONOMIA DA FEA-USP E ECONOMISTA CHEFE DO BANCO FATOR

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