Desemprego pode chegar a 30%, admite Argentina

O desemprego argentino poderia em pouco tempo passar dos atuais 22% para alcançar a proporção nunca antes registrada de 30%. A confissão foi realizada este fim de semana pelo vice-ministro da Economia, Jorge Todesca, que afirmou que entre outubro do ano 2000 e o mesmo mês do ano passado, mais de 1,4 milhão de argentinos tornaram-se?novos pobres? ou entraram na categoria de indigentes.Todesca admitiu que nos últimos meses estes números devem ter aumentado. Se esta disparada do desemprego ocorrer, a Argentina terá quintuplicado a proporção de pessoas sem trabalho desde 1992. Juan Carlos Maccarone, bispo de Santiago del Estero ? capital da província homônima, uma das mais pobres do país - também confirmou a perspectiva de 30% de desemprego.Segundo o bispo Maccarone, uma das principais lideranças da Igreja na Argentina, ?se não houver uma medida concreta para deter a hemorragia do desemprego, aí sim que a população não acreditará mais nas lideranças políticas?.A Igreja argentina, que durante décadas ignorou o estado das classes mais baixas no país, agora é uma ativa militante da procura de saídas para a crise. Há poucos dias, o próprio papa João Paulo II declarou que o agravamento da crise social argentina coloca em risco o sistema democrático do país. Na ocasião, o presidente Eduardo Duhalde concordoucom o Sumo Pontífice, dando-lhe a razão.Reunidos na ?Mesa de Diálogo Argentino? ? um fórum que está discutindo a criação de saídas para a crise - representantes do governo, e altas lideranças empresariais e sindicais, definiram a necessidade de implementação de um seguro-desemprego para 2,5 milhões de desempregados.Este subsídio-desemprego seria de 150 pesos mensais (US$ 75, segundo a cotação da sexta-feira). Os fundos para financiar os 4,5 bilhões de pesos (US$ 2,25 bilhões) necessários proviriam em parte do próprio governo argentino, que atualmente dispõe de 1 bilhão de pesos (US$ 500 milhões) para este fim. No entanto, os 3,5 bilhões de pesos (US$ 1,75 bilhão) restantes teriam que ser solicitados ao Banco Mundial e ao Banco Inter-americano de Desenvolvimento (BID). As centrais sindicais do país também se encarregariam de pedir ajuda a países da União Européia através da Organização Internacional do Trabalho (OIT).Diversos analistas temem que o desemprego poderá aumentar mais ainda a partir do momento em que o governo Duhalde aplicar o ajuste exigido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). No entanto, um dos braços-direitos do presidente Duhalde, o ministro do Interior Rodolfo Gabrielli, sustentou que os ajustes não serão feitos rapidamente?.Gabrielli também admitiu que a situação social do país ?é muito difícil e complexa?. Segundo o ministro ?quando o ex?presidente Fernando De la Rúa e o ex?ministro da Economia, Domingo Cavallo, fizeram o corralito denominação aplicada ao semi-congelamento de depósitos bancários), a situação social do país se agravou?.PiqueteirosA Assembléia Nacional de Piqueteiros concluiu neste sábado(domingo) duas jornadas de deliberações sobre como organizar os protestos contra a política econômica do governo Duhalde. Os piqueteiros são desempregados que bloqueiam estradas com piquetes, pedindo comida e trabalho. Junto com representantes das assembléias de moradores de bairros de Buenos Aires ? que nos últimos dois meses organizaram os panelaços de protestos contra os sucessivos governos que o país teve desde dezembro ? os desempregados decidiram a realização de uma mega-marcha nacional de desempregados para esta quarta-feira, dia 20. Nesta data, serão comemorados os dois meses de queda do governo do ex-presidente Fernando De la Rúa.Sem VistoAbandonar o país, para buscar no exterior melhoresoportunidades de trabalho, tornou-se a obsessão de milhares de argentinos, que diariamente realizam filas de vários quarteirões na frente dos consulados da Itália e Espanha.Emigrar para os Estados Unidos era outras das clássicas opções dos desempregados argentinos da cada vez mais empobrecida classe média. No entanto, esta alternativa será drasticamente obstaculizada a partir de amanhã (terça-feira), quando o governo americano reimplantará a exigência de vistos para entrar em território dos EUA.Desde 1996 os argentinos prescindiam deste visto. Este status ? o do Visa Waiver Program (?Programa de perdão dos vistos?) que um restrito clube de 29 países no mundo possuem, foi conseguido através da políticade aproximação e de alinhamento automático com os EUA aplicada pelo governo do ex?presidente Carlos Menem (1989-99). Esta política tornou-se famosa pela frase cunhada pelo ex?chanceler Guido Di Tella: ?relações carnais?.A mudança de opinião do governo dos EUA em relação à livre entrada de argentinos modificou-se radicalmente a partir dos atentados de setembro passado em Nova York e Washington. As autoridades americanas começarama temer que a relativa facilidade em falsificar DNIs (as cédulas de identidade deste país, necessárias para obter os passaportes) pudesse favorecer a entrada de terroristas nos EUA, via Argentina.Além disso, outro fator determinante foi a presença de mais de 200 mil argentinos que atualmente trabalham de forma ilegal em território americano.Leia o especial

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