Carl de Souza/AFP
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Taxa de desemprego recua para 13,7%, mas País ainda tem 14,1 milhões em busca de trabalho

No trimestre encerrado em julho foram gerados 3,1 milhões de postos de trabalho entre formais e informais, aindainsuficiente para recuperar o total de postos perdidos na crise causada pela covid-19, aponta o IBGE

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2021 | 09h17
Atualizado 30 de setembro de 2021 | 13h31

RIO - Puxada pela geração de empregos em geral, tanto formais quanto informais, a taxa de desemprego recuou para 13,7% no trimestre encerrado em julho, ante 14,7% no trimestre móvel imediatamente anterior, até abril, informou nesta quinta-feira, 30, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, em um trimestre, foram gerados 3,102 milhões de postos de trabalho, entre formais e informais. Em relação a um ano antes, foram criados 7,014 milhões de postos de trabalho, mas o País ainda em 14,085 milhões na fila do desemprego.

Segundo Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, o crescimento do número de vagas foi “bastante significativo”, mas ainda é insuficiente para recuperar o total de postos perdidos na crise causada pela covid-19. Quando se compara o total de brasileiros ocupados, em vagas tanto formais quanto informais, no trimestre até julho (89,042 milhões de trabalhadores) com o contingente visto no início de 2020, antes da pandemia, são 5,109 milhões de empregos a menos.

 

“Temos um patamar de ocupação que ainda é bem menor do que tínhamos no período pré-pandemia”, afirmou a pesquisadora do IBGE.

A geração de vagas no período de um trimestre pode não ter sido suficiente para recuperar todas as vagas perdidas na crise, mas ajudou a reduzir o desemprego. O total de desempregados ficou 4,6% abaixo do contingente do trimestre móvel terminado em abril. São 676 mil pessoas a menos na fila do desemprego.

Em relatório, o economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, avaliou que os dados não mudam a percepção de que o mercado de trabalho segue fraco. “A taxa de desemprego provavelmente continuará em dois dígitos por um longo período de tempo, à medida que o número ainda considerável de trabalhadores fora da força de trabalho (5,4 milhões) começa a procurar emprego e retorna à força de trabalho em ritmo mais rápido do que a criação de novos postos”, escreveu.

A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, projeta novos recuos da taxa de desemprego até o fim do ano, embora ainda não tenha revisado a estimativa de 12,9% para o quarto trimestre. Moreno atribui a evolução do cenário à expansão do Produto Interno Bruto (PIB), que deve fechar o ano em 5,2%, mas o cenário não é positivo para 2022. “O PIB vai desacelerar bastante e ficar abaixo do potencial, então o desemprego volta a subir um pouco”, disse a economista, que prevê crescimento de 1,5% no próximo ano. 

 

Para Adriana Beringuy, do IBGE, no curto prazo, o avanço na recuperação de vagas de trabalho se deve à normalização gradual das atividades econômicas, com o avanço da vacinação contra a covid-19 e a redução de medidas de restrição ao contato social. “Em julho, a vacinação chegou aos grupos etários mais envolvidos no mercado de trabalho. Isso acaba contribuindo, sim, para que as pessoas, uma vez vacinadas, voltem à sua dinâmica de circulação”, afirmou.

A pesquisadora chamou a atenção para o crescimento do total de trabalhadores com carteira assinada. O trimestre encerrado em julho de 2021 mostrou a abertura de 1,027 milhão de vagas com carteira assinada no setor privado em relação ao trimestre encerrado em abril. Na comparação com o trimestre até julho de 2020, 1,246 milhão de vagas com carteira assinada foram abertas no setor privado. O total de pessoas trabalhando com carteira assinada no setor privado foi de 30,631 milhões no trimestre até julho.

Mesmo assim, o grande motor da geração de vagas continua sendo o mercado informal. O Brasil tem 36,295 milhões de trabalhadores informais, segundo a Pnad Contínua. Em um trimestre, 2,073 milhões de pessoas a mais passaram a atuar como trabalhadores informais. Na comparação com um ano antes, são 5,601 milhões a mais na informalidade, ou seja, 80% do total de postos criados nesse período foram de ocupações informais.

Para Adriana, os dados sugerem a volta de um padrão histórico do mercado de trabalho brasileiro. Conforme esse padrão, em momentos de crise, as primeiras ocupações a serem perdidas são as associadas à informalidade, enquanto as vagas com carteira assinada demoram um pouco mais a serem fechadas. No sentido inverso, nos momentos de recuperação das crises, as ocupações informais começam a crescer antes do emprego formal, que também demora um pouco mais a retomar.

“O impacto inicial (da pandemia) foi justamente nos informais, que saíram do mercado num quantitativo bastante elevado”, afirmou a pesquisadora do IBGE, lembrando o destaque para o crescimento das vagas formais. “O emprego com carteira teve um prazo maior de resistência (no início da pandemia), mas, uma vez afetado, continuou em queda até agora (no trimestre até julho), quando tem recuperação”, completou a pesquisadora.

A informalidade, ao lado da aceleração da inflação nos últimos meses, pesou sobre o rendimento dos trabalhadores. Segundo o IBGE, o rendimento médio do trabalhador - ou seja, não leva em conta rendas obtidas com aposentadoria, pensões ou transferências de renda - ficou em R$ 2.508 ao mês no trimestre terminado em julho, uma queda de 8,8% ante um ano antes.

Segundo Adriana Beringuy, a queda se explica pelo crescimento da ocupação via vagas informais e pela aceleração da inflação nos últimos meses. “Houve expansão da ocupação, porém esse aumento ocorre com trabalhadores de menores remunerações do que um ano atrás, fazendo com que, na média, o rendimento seja menor”, explicou a pesquisadora do IBGE. “O crescimento da inflação que vem ocorrendo nos últimos meses também contribui para a queda real (no rendimento)”, completou.

Além de rendimentos mais baixos e da geração de vagas puxada pelo mercado informal, outros indicadores apontam para problemas na qualidade do crescimento do emprego. A taxa composta de subutilização da força de trabalho - espécie de taxa de desemprego ampliada, que inclui também as pessoas que trabalham menos do que gostariam ou que desistiram de procurar emprego, mas gostariam de trabalhar - ficou em 28,0%, abaixo dos 29,7% do trimestre móvel imediatamente anterior. Isso significa que falta trabalho para 31,699 milhões de pessoas no País, incluindo o total de desempregados.

Esse grupo poderia ter caído mais, não fosse o crescimento do número de trabalhadores subocupados por insuficiência de horas trabalhadas - grupo que trabalha menos tempo do que gostaria, cujo crescimento indica que a recuperação do mercado de trabalho vem se dando com baixa qualidade. Esse contingente somou 7,730 milhões de pessoas no trimestre móvel até julho, alta de 7,2% ante o trimestre móvel imediatamente anterior. Na comparação com um ano antes, houve um salto de 34,0% nesse contingente, com 1,963 milhão de trabalhadores a mais nessa condição. / COLABORARAM GUILHERME BIANCHINI E CÍCERO COTRIM

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