Tiago Queiroz/Estadão - 7/7/2021
Tiago Queiroz/Estadão - 7/7/2021

Taxa de desemprego recua no 2º trimestre, mas País ainda tem 14,4 milhões em busca de trabalho

Segundo o IBGE, taxa passou de 14,7% no período de janeiro a março para 14,1%, em meio à reabertura de estabelecimentos e ao avanço da vacinação contra covid

Daniela Amorim, Cícero Cotrim e Guilherme Bianchini , O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 09h18
Atualizado 31 de agosto de 2021 | 17h16

RIO e SÃO PAULO - Em meio à reabertura de estabelecimentos e ao avanço da imunização da população brasileira contra a covid-19, o mercado de trabalho no Brasil mostra que começa a se recuperar do choque provocado pela crise sanitária. A taxa de desemprego desceu de 14,7% no primeiro trimestre para 14,1% no segundo trimestre do ano, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira.

Em um trimestre, 2,141 milhões de pessoas conseguiram um trabalho, embora mais de 75% delas na informalidade. No segundo trimestre, 1,117 milhão de pessoas passaram a trabalhar por conta própria e sem CNPJ, ou seja, aderiram a esse tipo de atuação informal. O número de trabalhadores por conta própria subiu a um recorde de 24,839 milhões de pessoas em todo o País. Houve também criação de 618 mil vagas com carteira assinada no setor privado.


Embora haja mais pessoas trabalhando, a massa de salários em circulação na economia ficou 0,6% menor no segundo trimestre em relação ao que foi pago no primeiro trimestre deste ano, uma perda de R$ 1,199 bilhão.  Houve uma redução de 3% na remuneração média do trabalhador, R$ 79 a menos, totalizando R$ 2.515.

A queda no rendimento médio pode ser explicada tanto pelo aumento da ocupação via informalidade, que tradicionalmente tem remuneração mais baixa, quanto pela perda do poder de compra das famílias em função de pressões inflacionárias, apontou Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE. “O que a gente vê é que as pessoas reduzem o consumo para compatibilizar com esse nível de renda”, disse ela. “Para gerar uma massa de renda estável, eu tive que ter muito mais gente trabalhando. A retração do rendimento não permitiu que essa massa expandisse.”

O Brasil ainda tem 14,444 milhões de pessoas procurando uma vaga. Apesar do contingente ainda elevado de desempregados, o resultado da Pnad Contínua surpreendeu positivamente a maioria dos analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que estimavam uma taxa de desocupação mediana de 14,5% no segundo trimestre.

 

“Olhando não apenas o desemprego, mas também os índices qualitativos, foi uma divulgação positiva do mercado de trabalho, em linha com o que está acontecendo na economia como um todo, observando basicamente o progresso da vacinação, reabertura econômica, retorno das atividades à normalidade”, disse o economista-sênior do Banco ABC Brasil Daniel Xavier.

A recuperação do emprego para patamares pré-pandemia ainda vai depender do desempenho da atividade econômica e do impacto da inflação no poder de compra das famílias, que influencia a demanda doméstica, acredita Adriana Beringuy, do IBGE.

“Um fator que opera de forma bastante favorável para a recuperação do mercado de trabalho é a expansão da vacinação. Em muitas cidades do Brasil, você tem a primeira dose em pessoas com 18 anos de idade. Então o avanço da vacinação é bastante importante para a retomada”, disse Adriana Beringuy. “Mas a gente sabe que não depende só do avanço da vacinação. Existem outros fatores que operam decisivamente para a recuperação do mercado de trabalho, que responde a estímulos à economia”.

Para o economista João Leal, da gestora de recursos Rio Bravo Investimentos, a melhora nos indicadores em junho foi puxada por um ajuste na metodologia da Pnad Contínua, que voltou a ter coleta presencial dos dados da pesquisa, o que deve gerar um novo resultado positivo em julho. “A recuperação vai ser mais rápida em um primeiro momento por um ajuste estatístico dos dados, mas, depois, vai se tornar mais gradual”, previu Leal.

O economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, concorda que o recuo da taxa de desemprego se deve à melhora na coleta de dados da Pnad Contínua, mas também à retomada econômica. “A Pnad estava sendo feita inteiramente por telefone na pandemia. Como um terço da amostra é de junho, já tem o efeito do aumento do número de telefones e da retomada parcial da coleta presencial”, disse Imaizumi.

A taxa de resposta da Pnad Contínua alcançou 59% para o trimestre até junho. A coleta referente à situação do mercado de trabalho no mês de junho permaneceu em campo até o dia 30 de julho, já com entrevistas presenciais, informou no mês passado o órgão, quando anunciou o retorno parcial das atividades presenciais.

O pior desempenho foi registrado na pesquisa do trimestre encerrado em março deste ano, quando a taxa de resposta foi de apenas 52,5%. Antes da covid-19, a taxa de resposta da Pnad Contínua alcançava 89%.

Segundo o IBGE, a coleta presencial é feita apenas nos casos em que não for possível obter os dados pelo telefone. As unidades estaduais têm autonomia para decidir sobre a forma de obtenção de dados, sempre condicionada à evolução local da pandemia de covid-19.

Em 12 de julho, quando anunciou o retorno parcial de suas atividades presenciais, O IBGE já tinha a expectativa de conseguir melhorar a taxa de resposta em todo o País, o que possibilitará ao órgão voltar a divulgar dados regionais do mercado de trabalho com mais desagregações, que foram suspensas quando houve dificuldade na coleta.

A coleta telefônica de dados sobre o mercado de trabalho aumentou a incidência de respostas de jovens, mulheres e idosos na amostra da Pnad Contínua. O IBGE já tratava os dados obtidos, ajustando os resultados para o tamanho da população de cada unidade da federação. Agora, o instituto está trabalhando para ajustar toda a série histórica também em relação à distribuição das pessoas por idade e sexo. Essas variáveis serão usadas na construção dos pesos dos informantes para a obtenção do resultado total da pesquisa, o que o órgão acredita que impedirá novos resultados enviesados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.