Tiago Queiroz/Estadão - 9/6/2020
Tiago Queiroz/Estadão - 9/6/2020

Após 7 semanas, País volta a perder vagas de trabalho e 2,6 milhões ficam sem emprego desde maio

Dados da quarta semana de junho, divulgados nesta sexta pelo IBGE, mostram que a taxa de desemprego atingiu 13,1% ante 10,5% no início de maio

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 09h59

RIO - O mercado de trabalho voltou a fechar vagas na semana de 21 a 27 de junho, após sete semanas de estabilidade, enquanto a fila de desempregados continuou aumentando, mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Covid (Pnad Covid), divulgada nesta sexta-feira, 17, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A redução da população ocupada sinaliza para o fechamento de 1,4 milhão de vagas em uma semana. No mesmo período, 675 mil trabalhadores passaram ao desemprego – o número é menor do que o de vagas fechadas porque parte dos demitidos pode ter saído da força de trabalho, desistindo de procurar emprego.

Desde a primeira semana de maio, quando começou a nova pesquisa do IBGE, são 2,6 milhões de desempregados a mais, atingindo um total de 12,428 milhões de brasileiros e levando a taxa de desocupação a 13,1%, ante 10,5% no início de maio. O contingente de brasileiros sem emprego sobe para 39,367 milhões quando se leva em conta a população não ocupada que não procurou trabalho, mas que gostaria de trabalhar.

Economistas têm chamado a atenção para os efeitos inéditos da covid-19 sobre o mercado de trabalho, já que o avanço da pandemia e as medidas de isolamento social levaram a paradas abruptas nas atividades ou ao incentivo ao trabalho remoto. Diante da crise, houve demissões e trabalhadores em atividades tidas como informal ficaram impedidos de trabalhar.

Ainda assim, o total de desempregados não explodiu, porque os estudos sobre mercado de trabalho, conforme padrões internacionais, só consideram desocupada a pessoa que está sem uma vaga, mas tomou alguma atitude para conseguir trabalho. Com a pandemia, num primeiro momento, quem perdeu o emprego ficou impedido de procurar uma nova oportunidade.

Economistas já vinham alertando que, à medida que a economia for reabrindo, o desemprego subirá, pois trabalhadores que vinham encontrando dificuldade para buscar uma vaga começarão a correr atrás. Esse processo continuou na quarta semana de junho, conforme a Pnad Covid.

Só que esse movimento pode não ser o único responsável pela alta do desemprego, já que a queda na população ocupada (como é chamado o total de trabalhadores empregados, em vagas formais ou informais), para 82,5 milhões de pessoas na semana de 21 a 27 de junho, indica alta nas demissões. Desde a primeira semana de maio, o total de ocupados vinha girando em torno de 84 milhões, sempre com variações pouco significativas. Essa estabilidade apontava para uma freada nas perdas de empregos – seja com demissões, seja com trabalhadores informais desistindo de trabalhar.

Segundo Maria Lúcia Vieira, coordenadora da Pnad Covid, a nova rodada de demissões pode estar associada tanto ao fechamento de empresas quanto à dispensa de trabalhadores que estavam afastados do trabalho, em férias coletivas ou com o contrato suspenso, conforme medida emergencial adotada pelo governo em meio à crise.

Na quinta-feira, 16, o IBGE revelou que cerca de 523 mil empresas fecharam, na primeira quinzena de junho, por causa da pandemia. “Além disso, uma parcela das pessoas afastadas pode estar sendo desligada”, afirmou Maria Lúcia.

A Pnad Covid mostra uma queda contínua no total de trabalhadores ocupados, mas afastados do trabalho. Na primeira semana de maio, eram 16,589 milhões, 19,8% do total de ocupados. Na quarta semana de junho, esse grupo caiu para 10,323 milhões, ou 12,5% do total.

Enquanto o total de ocupados oscilava em torno de uma estabilidade, semana a semana, a queda no grupo de afastados sinalizava apenas para a reabertura das atividades. Com a nova rodada de fechamento de vagas, em vez de voltarem ao trabalho, os afastados podem estar sendo demitidos, explicou Maria Lúcia.

A pesquisadora do IBGE chamou a atenção ainda para a perspectiva de aumento no número de trabalhadores informais, como mais um caminho de piora do mercado de trabalho. Uma particularidade da pandemia foi, num primeiro momento, reduzir o número de informais, algo incomum. Como no Brasil as atividades informais servem como um “colchão”, com os diferentes “bicos” servindo de alternativa para quem é demitido, o comum é haver aumento do número de trabalhadores informais durante as crises.

Agora, com a gradual reabertura da economia, a tendência é que esse comportamento comum volte a aparecer, disse Maria Lúcia. Na passagem da terceira para a quarta semana de maio, o contingente de informais ficou estável em termos estatísticos, com alta de 13 mil pessoas apenas, mas é possível esperar aumentos mais significativos nos próximos meses, à medida que ocorram mais demissões.

O quadro deverá seguir piorando porque a tendência é de aumento no desemprego, com mais trabalhadores atrás de uma vaga. O movimento poderá ser reforçado no médio prazo, se pessoas que estavam voluntariamente fora da força de trabalho, como estudantes e donas de casa, se virem obrigados a procurar emprego por causa da crise. Nessas duas situações, as pessoas passariam a ser consideradas desempregadas.

Para medir a pressão em potencial sobre o mercado de trabalho, as pesquisas em todo o mundo medem os contingentes de pessoas que não estão procurando uma vaga, mas gostariam de trabalhar se tivessem oportunidade. Na primeira semana de maio, 27 milhões estavam nessa condição no Brasil, incluindo 19,137 milhões de pessoas que não procuravam trabalho especificamente por causa do isolamento social ou por falta de vagas em sua localidade. Na quarta semana de junho, o contingente de pessoas não ocupadas, mas que gostaria de trabalhar, ficou em 26,939 milhões, incluindo 17,825 milhões diretamente impactados pela pandemia.

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