Desenvolvimento tecnológico em xeque

A estrutura de desenvolvimento tecnológico para o setor de petróleo no Brasil precisa ser repensada, sobretudo após a descoberta de volumes gigantescos de petróleo no pré-sal. A garantia de crescimentos expressivos tanto da demanda por novos equipamentos quanto dos recursos destinados por lei à pesquisa tecnológica torna premente a necessidade de estender os limites do conhecimento para além da universidade e ampliá-lo a toda a cadeia de fornecedores, especialmente aos subfornecedores.

Aloisio Nóbrega e Carlos S. Camerini, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

O desafio está em aproveitar a onda positiva de investimento em tecnologia por petroleiras para melhorar a qualidade do produto do pequeno e do médio fornecedor e, assim, garantir a plena competitividade da indústria nacional. Desta forma, assegura-se não só o ganho ao fabricante de equipamento para a indústria do petróleo, como para todo o setor produtivo, já que muitas vezes uma única empresa atende a diferentes segmentos da economia.

Sob esse foco, torna-se cada vez mais importante estabelecer mecanismos voltados à estruturação do processo de distribuição dos recursos, sem dúvida um dos principais gargalos da sistemática legal vigente. O cerne da questão está em garantir o acesso direto das empresas aos recursos de pesquisa e desenvolvimento (P&D), de maneira a induzir de forma exponencial o desenvolvimento tecnológico do País.

Embora com disponibilidade de recurso para tal, a disseminação do acesso à tecnologia ainda é limitada e segue, como em outras esferas, algumas distorções. Na indústria fornecedora de petróleo e gás, a tecnologia permanece restrita aos fabricantes de equipamentos de grande porte, muitos deles estrangeiros, aqui estabelecidos e com oportunidade de solucionar suas demandas em seus países de origem. Enquanto isso, a base da cadeia padece de soluções.

Às vésperas do "boom" do desenvolvimento dos projetos do pré-sal, é vital que a estrutura tecnológica do setor ultrapasse os domínios do mundo acadêmico e ainda beneficie o pequeno fornecedor, praticamente excluído deste processo. Não se trata de alijar as universidades ou de tirar das grandes empresas para dar aos pequenos fornecedores, e sim de compor um cenário mais propício ao desenvolvimento tecnológico pujante, equilibrado e eficiente, que estimule a criação de um número cada vez maior de centros de tecnologia no Brasil, acessível à base da cadeia.

Antes de ser um problema de ausência de recurso, o gargalo no Brasil é estrutural. Enquanto os grandes fabricantes montam o seu quadro de especialistas para atender a suas demandas, as necessidades dos subfornecedores não encontram ressonância. As petroleiras priorizam a realização de pesquisas direcionadas às suas questões imediatas, investindo em soluções que atingem, na sua maioria, o topo da cadeia produtiva.

O cenário é agravado ainda mais diante da dificuldade na integração entre empresas e universidades. De um lado, os subfornecedores buscam soluções tecnológicas de curto e de médio prazos, voltadas às necessidades de mercado, enquanto os pesquisadores acadêmicos tendem a investir em desenvolvimento científico sofisticado, por vezes sem aplicabilidade no dia a dia da indústria.

É imprescindível estimular a proximidade entre o órgão de pesquisa, as petroleiras e os diversos segmentos da cadeia de fornecedores. A presença das universidades compromete a conexão entre eles, já que o acadêmico tem como missão ocupar a sua carga horária não só com a pesquisa tecnológica, como com o ensino em sala de aula e a produção científica. Pelo atual modelo de desenvolvimento tecnológico, há um desencontro de objetivos entre acadêmicos, indústrias petroleira e fornecedora.

O modelo de sucesso adotado em países como a Alemanha é pautado no fácil acesso dos subfornecedores a uma rede de institutos de pesquisa. Nos centros tecnológicos, o corpo técnico não possui outro objetivo senão produzir pesquisa direcionada a demandas específicas. Por aqui, vale ressaltar o êxito do Centro de Pesquisas da Petrobrás (Cenpes), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) e do Instituto Nacional de Tecnologia (INT). A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) vem fazendo a sua parte e, recentemente, lançou um edital para a contratação de projetos voltados para o pré-sal que prevê que a demanda pela pesquisa parta diretamente da empresa.

Evoluir depende, contudo, de esclarecer os limites e as diferenças entre a prática científica e a de produção tecnológica. A busca por soluções para o setor produtivo exige a utilização do conhecimento científico produzido nas universidades de ponta. Entretanto, esse conhecimento é apenas uma matéria-prima no desenvolvimento tecnológico, uma das peças de uma complexa engrenagem. Resolver esta equação é condição fundamental para aproveitar o momento ímpar do setor de petróleo e gás e de, definitivamente, elevar a indústria brasileira a um patamar de excelência e competitividade mundial.

SUPERINTENDENTES DA ORGANIZAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA DO PETRÓLEO (ONIP)

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