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Desenvolvimento tecnológico nos metrôs

Atendendo à aspiração sindicalista de trabalhadores das companhias de trens e metrôs, tramita no Congresso Nacional proposta de lei que obrigaria todos os novos trens a ter uma cabine de controle e, dentro dela, um agente operador. Qual a função deste operador nos novos trens com a tecnologia chamada de driverless? Os trens do metrô já são comandados de um centro de controle operacional, aonde chegam todas as informações necessárias. Como os novos trens serão articulados num salão único e contínuo, um agente a bordo poderá dar atenção a todos passageiros, em lugar de ter a tarefa de anunciar o nome da próxima estação. Esta é a única função rotineira que ainda resta no metrô de São Paulo, porque até a abertura das portas do trem já é programada e, futuramente, estarão sincronizadas com as portas que existirão na plataforma das estações. A nova tecnologia de controle permite colocar mais trens por linha e aumentar a segurança. Mas o anúncio da sua adoção, pela falta de melhor informação, desperta temores e resistência. Esta situação não é nova: há 200 anos, na Inglaterra, a difusão do uso de teares mecânicos nas fábricas de tecidos provocou reações violentas. Até hoje o nome de Ned Ludd é lembrado como o personagem que comandou a destruição desses teares em muitas cidades. Era o nome de um artesão usado como pseudônimo por vários líderes de movimentos de protesto e depredação de fábricas de tecelagem em defesa do ofício dos artesãos. A despeito da destruição dos teares movidos a vapor, em apenas duas décadas seu uso já estava difundido em toda a Inglaterra. Era o início da Revolução Industrial. Este episódio ilustra a inexorabilidade do progresso técnico. A tecnologia é produzida pelo homem, mas a sua difusão se faz independentemente da sua vontade, quando ela permite resolver velhos problemas. Nem mesmo os monopólios conseguem deter sua difusão. E é graças ao progresso tecnológico que, entre outras vantagens, os alimentos são hoje mais baratos e fáceis de serem transportados. Vale lembrar que já houve época remota em que somente aos nobres era dado possuir espelhos em suas casas. Isso sem falar da água encanada e luz elétrica em tempos mais recentes. Os equipamentos que incorporam novas tecnologias devem, ao longo de seu ciclo de vida, apresentar menor custo que os antecessores. A par desta vantagem, vale assinalar que, no caso dos metrôs, ao contrário do que se imagina, a automação integral representa um aumento da segurança. No Metrô de São Paulo, desde a sua entrada em operação, já era elevado o grau de automatismo na condução dos trens e na bilhetagem, agora feita com cartões eletrônicos. Mas é a eliminação das cabines nos trens que suscita resistência. Seria justo manter confinado, num espaço restrito, empregados executando tarefas desnecessárias? Não seria melhor que este operador, como agente de bordo, pudesse circular por toda a parte como ocorre em outras grandes cidades? Já existem operando linhas de metrô totalmente automatizadas em Paris, Lyon, Cingapura, Copenhague. Em Londres, opera há muito tempo um metrô leve sem condutor. Barcelona já implanta sua segunda linha com operação automática e linhas semelhantes estão em implantação em Milão, Roma e São Paulo. O atual momento dos transportes de alta capacidade faz lembrar a época em que os elevadores se tornaram automáticos. Temia-se pelo desemprego e se cogitou até em obrigar, por lei, que fosse mantido um ascensorista em cada um deles. A difusão de novas tecnologias possui algum grau de autonomia, pelos efeitos econômicos que gera. Mas não é a economia, apenas, que molda a sociedade. A sociedade também regula a economia por meio de suas instâncias de representação política. A atualização tecnológica, mesmo quando promovida em benefício de muitos, deve mitigar os prejuízos sobre outros, no caso, os atuais operadores de metrô, que devem ser capacitados a exercer as novas funções que surgirão. Entretanto, querer manter um posto de trabalho onde já não existe mais função, pior que inibir o progresso, é prejudicar os passageiros que pagariam mais do que o necessário para poder viajar.*Rogerio Belda é presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), organização que congrega entidades governamentais e privadas dedicada a estudos e atividades relacionados a transportes urbanos

Rogerio Belda, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

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