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Desesperança

Com investidor e consumidor cada vez mais arredios, atividade econômica trava

Cida Damasco, O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2019 | 05h00

Difícil saber se o que predominou, na troca de governo, foi de fato aumento de confiança ou de esperança. A verdade é que, na época, os indicadores de confiança deram um formidável salto entre consumidores e empresários. Movimento natural nesses momentos, mas potencializado dessa vez por uma expectativa de que, finalmente, as incertezas acumuladas durante um longo período de sobressaltos políticos poderiam se desfazer. Pelo visto, mais uma frustração. O governo ainda está a caminho do primeiro semestre e o clima é exatamente o oposto. A esperança deu lugar a um desânimo geral e o desempenho da economia é visto como causa e consequência dessa situação. 

Tanto o Índice de Confiança Empresarial como o Índice de Confiança do Consumidor, medidos pela Fundação Getúlio Vargas, voltaram ao nível de outubro de 2018, anulando as altas registradas na fase de entusiasmo com o novo governo – e de uma certa compreensão com seus atropelos, atribuídos principalmente à inexperiência. Guardadas as devidas especificidades, o movimento é semelhante ao observado nas pesquisas de opinião, que mostram uma queda da popularidade do governo: segundo o último levantamento XP/Ipespe, por exemplo, no fim de maio, a avaliação negativa do governo estava em alta e pela primeira vez desde o início do mandato já superava a positiva. 

Mera ciclotimia? Claro que não. O governo coleciona erros em áreas variadas – educação, relações exteriores, meio ambiente, etc. –, que só confirmam os temores despertados pela escolha de seus titulares. E até na economia, onde muitos enxergavam uma ilha de excelência e uma chance de “redenção” do governo Bolsonaro, os sinais não são de melhora, mas de agravamento da crise, como expõem os números do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre. A economia brasileira, hoje, está submetida a um preocupante círculo vicioso. Mais desconfiança, menos consumo, menos investimento, menos crescimento, mais desemprego. E, por tabela, mais desconfiança. 

Não é de se estranhar que, num quadro como o atual, os investidores se mantenham arredios. Com a economia estagnada, há ociosidade em vários setores, desestimulando programas de expansão da capacidade instalada e mesmo de atualização tecnológica. Além disso, há muitas dúvidas em relação aos caminhos que serão tomados pelo governo, principalmente no relacionamento com o Congresso – um dia é de “juntos para sempre”, outro é de rompimento iminente – e, em consequência, no andamento das reformas. Em momentos mais críticos, até a “sobrevivência” do governo foi posta em dúvida. 

Em queda, os investimentos fecharam o primeiro trimestre em 15,5% do PIB, exatos 5,5 pontos porcentuais abaixo do nível alcançado em 2013, antes da recessão. E não há pistas de reversão da tendência num horizonte próximo. Sem confiança, consumidores também adiam decisões que comprometam principalmente sua renda futura. Em outras palavras, cortam ao máximo seus gastos. Antes de mais nada, porque num país que tem hoje quase 28,5 milhões de pessoas na categoria de mão de obra subutilizada – que inclui, além de 13,2 milhões de desempregados, quem trabalha menos do que poderia, faz “bico” e não tem ânimo para buscar uma colocação –, o risco de ficar sem uma ocupação está muito presente na cabeça de todo trabalhador. Vale aquele raciocínio de “hoje é meu vizinho e meu parente, amanhã posso ser eu”. 

Embora tenha registrado a nona alta seguida e ainda sustente o desempenho do PIB, o consumo das famílias perdeu o fôlego e aumentou apenas 0,3% no primeiro trimestre deste ano. A equipe econômica tenta se equilibrar entre sua profissão de fé nas reformas e algumas medidas de curto prazo para tirar a economia do fundo do poço. Mas o curto prazo é sempre “mais adiante”.

Enquanto avançam as discussões sobre a Previdência, o ministro Paulo Guedes acena com a hipótese de liberação de recursos das contas ativas do FGTS e do PIS-Pasep para incentivar o consumo. A intenção é repetir a injeção de ânimo no consumo observada no governo Temer, com a liberação das contas inativas do Fundo.

Mas e os investimentos? Não os investimentos financeiros, que trocam de casa a cada sinal emitido por Trump, lá nos EUA, e por Bolsonaro ou Guedes, cá no Brasil. Mas os chamados investimentos produtivos, aqueles que pressupõem estabilidade. Esses precisam, antes de mais nada, da volta da esperança e da confiança no governo e no futuro do País. Está difícil. 

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