Desfile de perplexidades

O Fórum Econômico Mundial, que se realiza desde 1971 em Davos, na Suíça, a cada mês de janeiro, quase sempre foi uma exibição de receitas certeiras sobre como encarar o futuro com confiança. Desta vez, não passa de um megaencontro de perplexidades.As sumidades do mundo rico se sucedem em digressões sobre o que não conseguem entender ou sobre o que não conseguem antever.Uma das perplexidades é de como essa desordem foi acontecer em frente à porta dos xerifes no cargo, que não viram nada.A crise vinha sendo encubada há anos, à vista de todos, e poucos perceberam sua gravidade. Até setembro, por exemplo, o então presidente Bush (e ele não estava sozinho nessa) repetia que tudo não passava de um enorme porre coletivo ("Wall Street está bêbada!") e que nada havia de especialmente errado na economia americana. E os que profetizavam o fim dos tempos o faziam levianamente, mais como marketing pessoal do que como conclusão fundamentada.Segunda perplexidade: o que afinal é preciso para estancar o derretimento da atividade econômica e financeira global? Já que não podem quebrar, de quanto os bancos precisam para sair do atoleiro e quanto tempo levará isso? Os bancos centrais e os Tesouros já injetaram mais de US$ 1 trilhão nos bancões do mundo rico, compraram volumes nunca vistos de ativos podres, pagando sabe-se lá que preço, e, no entanto, a encalacrada continua, sem os progressos ansiados. Há quem afirme que só os bancos americanos precisam de pelo menos mais US$ 3 trilhões para se limparem e que o universo financeiro terá de ser dividido em duas categorias independentes: a dos bad banks, que assumiria a tralha tóxica; e a dos good banks, que abrigaria só o creme financeiro. E, claro, o Estado agasalharia o lixo a ser reciclado, que um dia poderá ser ressarcido, com eventuais lucros...Terceira perplexidade: nunca se viu crise em que os governos se metessem tanto. De uma hora para outra, os mercados percebem o quanto são dependentes da mão firme dos governantes. Os bancos centrais intervêm para além do mandato que receberam; os recursos vão sendo transferidos para cobertura de rombos sucessivos, sem muita transparência e, talvez, sem muita cobrança sobre seu paradeiro - porque há um incêndio atroz e, para debelar as chamas, bombeiro nenhum pede licença para fazer o que tem de ser feito. E ninguém sabe as consequências de tanta intervenção estatal, quanto custará para o futuro dos negócios e que novas dependências haverá de criar.Quarta perplexidade: já se tinha razoável noção de que, nas relações de produção e de administração de rendas, confiança é tudo ou quase tudo. Mas isso é como o ar que se respira: ninguém nota sua importância a não ser quando falta. E, no entanto, o grande desastre desta crise é a erosão da confiança. Aplicador deixou de confiar em banco, banco deixou de confiar em banco, os organismos reguladores não regularam nada, o consumidor deixou de confiar no futuro. A crise é de crédito, em todos os sentidos com que se usa o termo. Na aflição todos correm para o dólar, mas isso será assim até quando, se tudo o que está em dólar derrete?Nessa paisagem, sucedem-se as avaliações sobre o que virá. Há os catastrofistas, os que não perdem a esperança, os catatônicos - todos perplexos.ConfiraDois lados - A queda do IGP-M em janeiro tem o lado bom, de mostrar o esvaziamento da inflação. Mas também mostra que a crise está forte e deixou o empresário com encalhe de mercadoria a ponto de derrubar os preços no atacado.

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