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Desgostos de agosto

Este agosto, mês de desgosto, termina apontando para alguns focos graves de perturbação econômica

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2015 | 05h00

Este agosto, mês de desgosto, termina apontando para alguns focos graves de perturbação econômica.

O mais abrangente deles é a turbulência que vem da China. Não há clareza sobre seu impacto na economia mundial e na brasileira. Um grande número de analistas entende que uma bolha está para estourar, que ameaça não apenas o mercado de ações e o mercado imobiliário, mas a própria atividade econômica da segunda maior economia do mundo. Outros acreditam em que se trata apenas de uma sacudida temporária de arrumação, que logo será ultrapassada.

Até agora, o governo da China mostrou-se capaz de enfrentar pressões muito maiores do que essa. Enfrentou com sucesso, por exemplo, os impressionantes deslocamentos da população rural para as cidades. A dúvida está em saber se o estágio bem mais avançado do desenvolvimento econômico do país não está gerando transformações mais profundas também nas relações de poder dentro de um sistema autoritário, agora em trabalho de parto de uma nova ordem. De todo modo, faltam informações que apontem com mais clareza  o que está acontecendo na China.

Do ponto de vista do Brasil, o risco é que o ritmo de crescimento da economia não seja suficiente para absorver o enorme aumento da produção de mercadorias primárias (commodities) no mundo. Se não for, a depressão dos seus preços será prolongada.

Em compensação, o impressionante avanço do PIB dos Estados Unidos no segundo trimestre, de 3,7% em padrões anualizados, sugere que já dá para contar com novo estágio de recuperação da economia mundial. A grande dúvida gira em torno da disposição do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de começar ainda neste ano o processo de valorização do dólar (alta dos juros). O principal efeito, do ponto de vista do Brasil, será o redirecionamento dos capitais para os Estados Unidos, que poderão fazer falta, no momento em que o País mais pode estar precisando de recursos.

A perturbação maior, no entanto, está sendo gerada aqui mesmo, e não lá fora. O governo Dilma, em plena elaboração do Orçamento de 2016, já não consegue esconder o enorme rombo fiscal. O déficit aponta para espantosos 5% do PIB em 2018, como calcula o especialista Samuel Pessoa. E a dívida bruta caminha para acima dos 70% do PIB, nível suficiente para provocar rejeição crescente dos títulos brasileiros, independentemente da velocidade em que vier o rebaixamento da qualidade dos títulos do Tesouro pelas agências de classificação de risco.

A presidente Dilma acaba de reconhecer que é preciso tratar da grave obesidade da Previdência Social. E já avisou que vai defender um aumento da carga tributária. Ela, que vem lembrando os estragos provocados pela Inconfidência Mineira, parece menosprezar os impactos de uma nova derrama no Brasil. Começou por pressionar pela volta da CPMF, transformada em imposto para ser distribuído também a Estados e municípios e, assim, contar com mais apoio político para sua implantação. Não está claro se apenas um ato de vontade será suficiente para o retorno dessa anomalia.

A indústria continua afundando. Os novos números do PIB mostraram que a produção do setor caiu 2,9% em 12 meses e nada menos que 4,3% no segundo trimestre em relação ao trimestre anterior. O desemprego já atingiu 8,3% da população ativa e deve saltar para acima de 9% nos próximos dois meses. Esta é a mais nova fonte de pressão política sobre o governo Dilma.

O empresariado, cada vez mais sem chão, já fez sua avaliação do impacto dessa queda de renda sobre o faturamento futuro de seus negócios. Esta é a principal razão da ferocidade com que o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, passou a atacar o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, como se a política de ajuste fosse a causa de tudo.

Não há nenhuma indicação de que os graves problemas enfrentados pela economia serão equacionados a partir deste setembro, mês da primavera. Ao contrário, a crise política tende a se aprofundar. E, como nunca aconteceu na história do Brasil, não há como avaliar nem os desdobramentos nem os novos impactos a serem produzidos pela Operação Lava Jato e sua nova safra de delatores.

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