Design disputa prêmio em Cannes

Criação da categoria no Festival de Publicidade reflete status do design

Marili Ribeiro e Marianna Aragão, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2008 | 00h00

O design que virou uma das categorias a disputar os cobiçados Leões de bronze, prata e ouro que todos os anos premiam os melhores trabalhos no Festival Internacional de Publicidade de Cannes não é o design visto pela forma ou pela beleza. Mas sim o design que vende. Ou melhor, aquele que é visto como ferramenta que ajuda a construir marcas. A chegada do tema à disputa na 55ª edição do Festival, que acontece em junho na França, vai ter a participação de um jurado brasileiro: Frederico Gelli, sócio da agência Tátil Design, com sede no Rio de Janeiro. "O design brasileiro sabe fazer muito com menos e quero mostrar isso por lá", diz ele.Para Gelli, a presença do design em Cannes ocorre tardiamente. Há alguns anos, segundo ele, os profissionais da área tem sido chamados a participar de decisões estratégicas nas empresas que querem lançar um produto. "A força da embalagem na hora da decisão de compra tem merecido investimentos da empresas para se diferenciar num mercado hipercompetitivo", diz.A categoria Design Lions pretende homenagear o uso inovador do design no desenvolvimento e comunicação de marcas e produtos, incluindo embalagens, identificação de marca e desenho ambiental. Para presidir o júri inaugural foi nomeado o inglês Rodney Fitch, presidente da Fitch Worldwide. "Sempre me questionei por que Cannes não homenageava o design. Afinal, é justamente o design a plataforma sobre a qual boa parte da criatividade se baseia", disse, ao ser convidado.No Brasil, o investimento em projetos de design cresce nas empresas e começa a ganhar parte das verbas de marketing destinadas à propaganda convencional, segundo a pesquisadora do tema, Adélia Borges. "As campanhas publicitárias têm alto impacto, mas uma duração curta junto ao consumidor. Já o design têm uma permanência maior, vida mais longa", diz Adélia, curadora do Museu da Casa Brasileira e professora de história do design."Há bem pouco tempo, um filme de 30 segundos transmitido repetidas vezes em horário nobre cumpria o papel de chamar o público", diz Gelli. "Hoje, a ação não se sustenta de forma isolada. Aí é que entra o design, com papel de materializar o discurso das marcas, criando um encadeamento de experiências que envolvam as pessoas."O mesmo discurso é destacado por Lincoln Seragini, designer com 40 anos de experiência e sócio da agência de design Seragini Farnè, em parceria com o italiano Alfredo Farné. "Hoje, o próprio design é a propaganda do produto", diz. Um exemplo disso, diz Seragini, é o iPhone. "A Apple não precisa fazer propaganda: o design do iPhone fala por si só. É a estética substituindo a marca." O design brasileiro, que antes da abertura do mercado criava pouco, está começando a desenvolver uma identidade. "De fabricantes de aviões a eletrodomésticos, a indústria do País está investindo cada vez mais na área. Isso está ajudando a criar essa identidade nacional", diz Seragini. E engana-se quem pensa que esse design está restrito aos consumidores de bens de luxo ou caros. Segundo Adélia, vários produtos destinados à população de baixa renda têm design. Os fabricantes de geladeiras, máquinas de lavar e fogões - a chamada linha branca - estão entre os setores que têm os times de design mais competitivos. "Hoje, tem até tanquinho criado por estúdio de design", diz Adélia. O Brasil viveu uma explosão de cursos de design nos últimos quatro anos. Segundo Manoel Muller, presidente da Abedesign (Associação Brasileira de Empresas de Design), existem mais de 400 mil estudantes do tema, entre cursos livres, de graduação e pós-graduação.Algumas universidades já criaram cursos em áreas específicas da indústria. É o caso da pós-graduação em Design Automotivo da Escola de Belas Artes, em São Paulo. "As montadoras recebem cada vez mais investimentos das matrizes para aplicar em design aqui", diz Muller. Há estimativas de que o mercado de design movimente em torno de R$ 300 milhões no País por ano. O valor inclui o faturamento das agências de design e também o investimento da indústria na atividade. O potencial de crescimento do segmento tem feito com que proliferem as palestras e os prêmios na categoria no País.Nesta semana, por exemplo, acontece na Fecomércio, em São Paulo, dia 15, uma palestra do americano Brian Collins, que é o presidente da Collins Design Research e têm trabalhos para Jaguar e IBM. Na semana passada, houve outro evento, o I Encontro Idea Brasil, que faz parte de um projeto que trouxe o prêmio Idea, realizado originalmente nos Estados Unidos. Um dos palestrantes foi o americano, Tucker Viemeister, que desenvolveu projetos para marcas como Coca-Cola, Toyota, Sheraton Hotel. Em comum, todas essas palestras reforçam o discurso: "O design é a nova alma do negócio."FRASESFrederico GelliDesigner"A força da embalagem na decisão de compra tem merecido investimentos da empresas para se diferenciar num mercado hipercompetitivo"Lincoln SeraginiDesigner"Hoje o próprio design é a publicidade. A Apple não precisa fazer propaganda: o design do iPhone fala por si só. É a estética substituindo a marca"

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