Desigualdade caiu forte em dez anos

Estudo do Ipea mostra que, mesmo assim, estamos entre os 12 países onde a distância entre os mais ricos e os mais pobres é maior

AYR ALISKI / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2012 | 03h16

O Brasil reduziu drasticamente a distância entre os mais ricos e os mais pobres nos últimos dez anos, mas ainda assim a desigualdade brasileira está entre as 12 mais altas do mundo. A conclusão é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que lançou ontem o estudo 'A década inclusiva (2011-2011): Desigualdade, Pobreza e Políticas de Renda'.

A pesquisa indica que "não há na História brasileira, estatisticamente documentada desde 1960, nada similar à redução da desigualdade de renda observada desde 2001". Paralelamente, entretanto, ao apresentar a pesquisa, o novo presidente do órgão, Marcelo Neri, ressaltou que os brasileiros ainda vivem sob extremas distâncias quando o assunto é renda. "O brasileiro mais pobre é tão pobre quanto os intocáveis indianos e o mais rico não é menos rico que o russo abastado e quase como o americano abastado", disse Neri.

O estudo do Ipea considera dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Uma das conclusões é que entre 2001 e 2011 a renda per capita dos 10% mais ricos cresceu 16,6% em termos acumulados, enquanto a dos mais pobres cresceu 91,2%.

"Se se fizesse uma conta simples, seria um crescimento de 9% ao ano. A renda dos 10% mais pobres cresce 5 vezes e meia mais rápido que a dos 10% mais ricos", disse Neri. O Ipea ressalta também que a evolução da renda dos 20% mais ricos no Brasil foi inferior à de todos os Brics, enquanto o aumento de renda dos 20% mais pobres supera o de todos os demais, exceto a China.

Por nível de escolaridade, o estudo do Ipea ressalta que, no caso das pessoas que vivem em famílias chefiadas por analfabetos, a renda sobe 88,6%. Por outro lado, houve decréscimo de 11,1% daquelas cujas pessoas de referência têm 12 ou mais anos de estudo completos.

Por regiões, o estudo aponta que a renda do Nordeste sobe 72,8%, ante 45,8% do Sudeste. Da mesma forma, a renda cresceu mais nas áreas rurais pobres (85,5%) que nas metrópoles (40,5%). Além disso, o Ipea apurou que no período a renda dos brasileiros que se identificam como pretos e pardos sobe 66,3% e 85,5%, respectivamente, ante 47,6% dos brancos.

Bolsa-Família. A pesquisa mostra, ainda, que nesses dez anos a renda das crianças de zero a quatro anos sobe 61%, ante 47,6% daqueles de 55 a 59 anos. Nesse último caso, o movimento é explicado por ações como o Bolsa-Família e o Brasil Sem Miséria, argumenta o Ipea. A pesquisa destaca que tais programas privilegiam as mães como titulares dos benefícios. O estudo considerou dados das Pnads de 1995 a 2011.

Neri, que assumiu a presidência do Ipea dia 12, compara o movimento traçado recentemente pelo Brasil como uma combinação do que ocorre na China e na Índia e chega a denominar essa trajetória de efeito "Chíndia". "Os indianos e os chineses saindo da pobreza é mais ou menos a mesma cena que os nordestinos, pessoas de cor preta, analfabetos, a parte mais pobre do Brasil está percorrendo."

Na conclusão do estudo, o Ipea destaca que, "na verdade, a desigualdade no Brasil levaria pelo menos 20 anos no atual ritmo de crescimento para atingir níveis dos EUA". Para a nova década, ressalta a importância do Bolsa-Família. "A segunda década do novo milênio parece ser a de múltiplos caminhos em direção à superação da pobreza. Diversos deles serão trilhados sobre a estrutura do Bolsa-Família."

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