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Desigualdade em países ricos é a maior em 30 anos

Estudo da OCDE aponta que conjuntura prejudica o crescimento; custou 10% da expansão da Nova Zelândia e entre 6% a 9% dos EUA em 20 anos

ANDREI NETTO , O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2014 | 02h04

Um estudo publicado ontem pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que a desigualdade social em países ricos é a maior em 30 anos, e que essa conjuntura é prejudicial ao crescimento econômico nacional e mundial. Segundo a entidade, o aumento da distância entre ricos e pobres custou 10% de crescimento ao México e à Nova Zelândia em 20 anos, e entre 6% e 9% nos EUA, no Reino Unido e na Itália.

A investigação foi feita pela entidade entre os seus 34 países-membros da OCDE, clube de nações desenvolvidas ou emergentes do qual Brasil, China e Índia não fazem parte. Conforme o estudo, mesmo sociedades equilibradas, como as do norte da Europa, vivem conjunturas piores do que há três décadas. Em países como Noruega, Suécia, Finlândia, Alemanha, Estados Unidos, Israel e Nova Zelândia, o equilíbrio social piorou. França, Espanha, Holanda, Bélgica e Irlanda, países que controlaram melhor o problema por via de políticas fiscais, praticamente mantiveram seus níveis de desigualdade. Grécia e Turquia reduziram a diferença entre ricos e pobres.

O resultado prático é que os 10% da população mais abastada dos países da OCDE tem renda 9,5 vezes superior à dos 10% menos favorecidos. Nos anos 80, a renda dos 10% mais ricos era sete vezes maior do que a dos 10% mais pobres. Nos EUA, esse índice é de 16 vezes, de 13 vezes na Grécia, de 27 vezes no México e de 30 no Chile. Mas mesmo na Suécia o buraco aumentou durante a crise econômica mundial, de 5,8 vezes em 2007 para 6,3 vezes em 2011.

Pelo Índice Gini, a média dos países da OCDE cresceu de 0,29 nos anos 80 a 0,32 entre 2011 e 2012 - quanto mais perto de zero, mais igualitário, e quanto mais perto de um, mais desigual é a nação. Nada menos do que 16 dos 21 países-membros da organização estudados tiveram piora de conjuntura. Também pelos critérios do Gini, três dos cinco piores índices estão nas Américas: Chile, com 0,5, México, com 0,48, Turquia, com 0,41, EUA, com 0,39 e Israel, com 0,38. A título de comparação, o coeficiente Gini do Brasil - país que não consta do estudo - é de 0,498.

Impacto econômico. A maior novidade do estudo da OCDE, porém, é a constatação de que a desigualdade tem um custo econômico. Pelos cálculos do economista Frederico Cigano, autor da investigação, México e Nova Zelândia foram os mais prejudicados, mas não os únicos. "Esses elementos indiscutíveis mostram a que ponto é crucial atacar a agravação das desigualdades se quisermos favorecer um crescimento forte e perene, e quanto importa colocar essa questão no primeiro plano de debates", afirmou Angel Gurría, secretário-geral da OCDE. "São os países que trabalham pela igualdade de oportunidades entre os mais jovens que superarão o desafio do crescimento e da prosperidade."

De acordo com Gurría, a concentração de renda dos 1% mais ricos - os ultrarricos - são um problema para o crescimento, mas é preciso enfrentar o problema da baixa renda dos 40% menos abastados. São essas famílias que enfrentam mais dificuldades para oferecer serviços essenciais aos filhos, como educação de qualidade, um fator importante de mobilidade social. "O principal fator que determina a incidência de desigualdades no crescimento é o fosso que separa as famílias mais modestas do resto da população", diz o estudo. "Os fatos vêm corroborar uma das teorias sobre o impacto da desigualdade sobre o crescimento: a de que os entraves à acumulação do capital humano e as desigualdades de renda comprometem as chances de inclusão para as populações desfavorecidas, limitando mobilidade social e desenvolvimento de competências."

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