Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão
Imagem Elena Landau
Colunista
Elena Landau
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Desigualdade estrutural no País é fruto da péssima alocação de recursos públicos

Eliminar essas distorções significa enfrentar lobbies poderosos, o que é quase impossível quando a agenda é a do Centrão, não tão secreta quanto o Orçamento, e em um governo que protege suas corporações favoritas: policiais e militares

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2021 | 04h00

A pandemia escancarou um problema antigo: a desigualdade na nossa sociedade. Ampliou as diferenças entre gêneros, raças e classes sociais, com forte impacto sobre mulheres negras. O longo período sem aula presencial também aprofundou a distância no aprendizado pela falta de acesso ao ensino remoto para os mais pobres.

Há grande preocupação em como recuperar os meses de ensino perdido; com a reinserção produtiva; a abertura de novos postos de trabalho na economia digital; o cuidado com os órfãos da covid e as sequelas dos que foram contaminados. É uma desafiadora agenda de curto prazo. Se junta à necessidade de investimentos, público ou privado, para corrigir a situação caótica em que grande parte da população se encontrava quando o vírus chegou.

A ausência do Estado agravou as consequências para os mais vulneráveis, contribuindo para acentuar as diferenças já existentes. Faltava tudo: saneamento, transporte público e habitação popular, o que impediu a proteção via distanciamento e higiene. Essa situação de abandono não pode mais ser ignorada.

São ações urgentes e necessárias, mas não vão resolver a desigualdade estrutural decorrente da péssima alocação de recursos públicos, que, como sempre, favorece os privilegiados.

Duas colunas publicadas esta semana detalham essas várias distorções: “Elites e a permanência da desigualdade”, de Renato Fragelli e Pedro Cavalcanti, no Valor, e “A versão e os fatos”, de Marcos Mendes, na Folha. Mostram que o buraco é mais embaixo. São erros de raiz – da área tributária aos salários do funcionalismo, bem acima do setor privado. 

Vale a leitura. Os suspeitos usuais estão lá identificados. Têm origem na intervenção estatal para estimular a economia, e que nunca funciona. São os campeões nacionais, a desoneração da folha, o Rota 2030 e, claro, a Zona Franca de Manaus. Se juntam a esses desperdícios, os regimes especiais, como “pejotização” e desconto dos gastos com saúde e educação na rede privada. Sem falar nos salários do Judiciário e benefícios de empregados de estatais. Há também uma questão relevante a resolver: a pouca ênfase nas crianças e jovens. A maior parte dos gastos sociais vai para idosos.

Eliminar essas distorções significa enfrentar lobbies poderosos, o que é quase impossível quando a agenda é a do Centrão, não tão secreta quanto o Orçamento. E em um governo que protege suas corporações favoritas: policiais e militares.

Justiça seja feita, não começou agora. Chegamos aqui por conta de muitos anos de “meu pirão primeiro”. É preciso um cavalo de pau. 

* ECONOMISTA E ADVOGADA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.