Josh Haner|NYT
Josh Haner|NYT

Desigualdade hoje, possível catástrofe amanhã

Diferenças extremas em termos de renda e riqueza surgirão em razão de muitas causas, mas candidatos nos EUA parecem não ver isso

Robert Shiller, The New York Times

30 de agosto de 2016 | 05h00

A desigualdade econômica já se tornou uma preocupação, mas se tornará um pesadelo nas próximas décadas e temo que não estamos bem equipados para enfrentar o problema.

Diferenças realmente extremas em termos de renda e riqueza surgirão em razão de muitas causas. Entre elas, as inovações no campo da robótica e da inteligência artificial, que já vêm tornando muitos empregos não competitivos, podem nos levar a um mundo em que será impossível encontrar um trabalho básico com um salário decente. Um desastre ambiental por causa do aquecimento global, poluição ou doenças podem reduzir a capacidade das pessoas viverem em regiões específicas ou até em países inteiros.

Guerras futuras que usarão cada vez mais tecnologia altamente destrutiva, incluindo armas químicas, biológicas, radiológicas ou nucleares, poderão destruir grandes populações. E não é impossível que mudanças políticas funestas, como o surgimento de estruturas sociais racistas ou elitistas, tenham consequências terrivelmente prejudiciais para os menos privilegiados.

Espero sinceramente que nada disso aconteça. Mas mesmo que se tornem improváveis como parte do nosso avanço na direção de um mundo melhor, deveríamos pensar agora como poderemos enfrentar esses problemas, se ocorrerem.

A atual campanha presidencial nos Estados Unidos não tem contemplado questões de longo alcance como essas. Os candidatos se concentram em problemas de curto prazo e nas dificuldades enfrentadas pelas pessoas com renda média e não por aquelas que vivem na pobreza extrema.

Sem proteção. O setor privado também não colabora muito. Não se empenha para desenvolver mercados de seguro ou de hedge para proteção contra esses riscos. O que nos leva a uma pergunta importante: podemos depender da benevolência da sociedade para compensar e cuidar daqueles que serão os prejudicados no caso de acontecimentos funestos ocorrerem?

Uma maneira de julgar o provável resultado é examinar o que sucedeu no passado. Em seu novo livro Taxing the Rich: A History of Fiscal Fairness in the United States and Europe, Kenneth Scheve de Stanford e David Stasavage, da Universidade de Nova York, fizeram um exame de 20 países num período de dois séculos para saber como as sociedades responderam aos menos afortunados. Sua principal conclusão parece desalentadora: os impostos cobrados dos ricos no geral não subiram quando a desigualdade e as dificuldades econômicas aumentaram.

Pelo contrário, concluíram que os impostos sobem quando o bem-estar social aumenta, em grande parte “porque a mobilização para a guerra mudou as crenças sobre justiça fiscal”. Essas mudanças nos impostos no geral tinham por fim garantir a sobrevivência nacional e não corrigir as desigualdades econômicas.

Os professores Scheve e Stasavage concluíram que países democráticos não têm adotado de modo consistente políticas fiscais mais redistributivas e muitas pessoas não votam rigorosamente no interesse próprio. Como o direito de voto ampliou no decorrer dos séculos e pessoas sem propriedade começaram a votar, elas não agiram consistentemente para taxar os riscos. Essas conclusões são contrárias ao discurso popular. Lembre que em 2012 Mitt Romney afirmou que numa democracia o candidato que oferece isenções fiscais para os menos favorecidos economicamente, às expensas dos ricos, têm o apoio das massas “incondicionalmente”. Essa afirmação não é apoiada pelos registros históricos.

Pelo contrário, parece que, para o pior ou para o melhor, a maioria das pessoas compartilha noções simples de direito e justiça. Segundo os professores Scheve e Stasavage e seus colegas, em 2014, quando foi perguntado aos cidadãos nos EUA que taxa de imposto marginal “gostariam de ver” sobre rendas familiares de US$ 375.000, em média responderam que a taxa deveria ser de 30%, com a maior parte das respostas pendendo entre 20% e 40%. (Essa taxa para esse montante de renda é de 33%).

Longo prazo. Com nove outros economistas, contribui para um projeto de previsões de longo prazo. Os resultados apareceram em um livro editado por Ignacio Palacios-Huerta, da London School of Economics: In 100 Years: Leading Economists Predict the Future. Nenhum de nós expressou otimismo de que a desigualdade será corrigida no futuro nem se aventurou no sentido de que uma política econômica de peso provavelmente neutralizará as recentes tendências.

Por exemplo, Angus Deaton, de Princeton, comentando o que chamou de “grotescas expansões da desigualdade nos últimos 30 anos”, fez um prognóstico pessimista: “aqueles que se saírem bem se organizarão para proteger o que possuem, incluindo maneiras de se beneficiar mesmo que seja à custa da maioria”. E segundo Robert M. Solow, do MIT, “não somos bons em redistribuição de renda em larga escala”. Os professores são laureados com o Prêmio Nobel.

Apesar dos fracassos do passado, não devemos perder a esperança em nossa capacidade de melhorar o mundo. Num artigo recente, descrevi meios pelos quais a sociedade pode mudar uma noção enraizada de benefício, ampliando radicalmente a proteção do salário e do emprego. Esse programa seria um começo de preparação para enfrentarmos os imensos desafios à nossa frente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.