Desigualdade no Brasil recua, mas ainda está entre as 12 mais altas

Segundo levantamento do Ipea, não há na história brasileira, estatisticamente documentada desde 1960, nada similar à redução da desigualdade de renda observada desde 2001  

Ayr Aliski, da Agência Estado,

25 de setembro de 2012 | 18h59

BRASÍLIA - O Brasil reduziu drasticamente as distâncias entre os mais ricos e os mais pobres nos últimos dez anos, mas ainda assim a desigualdade brasileira está entre as 12 mais altas do mundo. A conclusão é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que lançou ontem o estudo "A década inclusiva (2011-2011): Desigualdade, Pobreza e Políticas de Renda".

A pesquisa indica que "não há na História brasileira, estatisticamente documentada desde 1960, nada similar à redução da desigualdade de renda observada desde 2001". Paralelamente, entretanto, ao apresentar a pesquisa, o novo presidente do órgão, Marcelo Neri, ressaltou que os brasileiros ainda vivem sob extremas distâncias, quando o assunto é renda. "O brasileiro mais pobre é tão pobre quanto os intocáveis indianos e o brasileiro mais rico não é menos rico que o russo abastado e quase como o norte-americano abastado", disse Neri.

O estudo do Ipea considera dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Uma das conclusões é que entre 2001 e 2011, a renda per capita dos 10% mais ricos aumentou 16,6% em termos acumulados, enquanto a renda dos mais pobres cresceu 91,2% no período.

"Se se fizesse uma conta simples, seria um crescimento de 9% ao ano. A renda dos 10% mais pobres cresce 5 vezes e meia mais rápido que a dos 10% mais ricos", disse Neri. O Ipea ressalta também que a evolução da renda dos 20% mais ricos no Brasil foi inferior ao de todos os Brics, enquanto o crescimento de renda dos 20% mais pobres supera o de todos os demais, com exceção da China.

Por nível de escolaridade, o estudo do Ipea ressalta que no caso das pessoas que vivem em famílias chefiadas por analfabetos, a renda sobe 88,6%. Por outro lado, houve decréscimo de 11,1% daquelas cujas pessoas de referência possuem 12 ou mais anos de estudo completos. Por regiões, o estudo aponta que a renda do Nordeste sobe 72,8%, contra 45,8% do Sudeste. Da mesma forma, a renda cresceu mais nas áreas rurais pobres (85,5%) que nas metrópoles (40,5%). Além disso, o Ipea apurou que no período considerado, a renda dos brasileiros que se identificam como pretos e pardos sobe 66,3% e 85,5%, respectivamente, contra 47,6% dos brancos.

A pesquisa mostra, ainda, que nos dez anos considerados, a renda das crianças de zero a quatro anos sobe 61%, contra 47,6% daqueles de 55 a 59 anos. Neste último caso, o movimento é explicado por ações como o Bolsa Família e o Brasil Sem Miséria, argumenta o Ipea. A pesquisa destaca que tais programas privilegiam as mães como titulares dos benefícios. O Ipea ressalta, ainda, que o Bolsa Família custa hoje aos cofres federais menos de 0,5% do PIB. O estudo do IPEA considerou dados das PNADs de 1995 a 2011.

Neri, que assumiu a presidência do Ipea em 12 de setembro e concedeu nesta terça-feira, 25, sua primeira entrevista coletiva, compara o movimento traçado recentemente pelo Brasil como uma combinação do que ocorre na China e na Índia, com ascensão dos mais pobres, e chega a denominar essa trajetória de efeito "Chindia". "Os indianos e os chineses saindo da pobreza é mais ou menos a mesma cena que os nordestinos, pessoas de cor preta, analfabetos, a parte mais pobre do Brasil está percorrendo, saindo desde baixo".

O presidente do Ipea destacou que dados da Unesco indicam crescimento da desigualdade em todo países que já haviam reduzido esses índices, como a África do Sul, mas citou que o Brasil está indo contra essa corrente "Nos Estados Unidos, a desigualdade sobe há 30 anos", disse. "Não é à toa que invadiram Wall Street. Não é à toa que tentaram invadir a City londrina. É protesto contra a desigualdade."

Na conclusão do estudo, o Ipea destaca que "na verdade, a desigualdade no Brasil permanece entre as 15 maiores do mundo, e levaria pelo menos 20 anos no atual ritmo de crescimento para atingir níveis dos Estados Unidos".

O instituto ressalta que rendimentos do trabalho explicam 58% da queda do índice de Gini entre 2001 e 2008, sendo 19% dela explicada por aumentos dos benefícios da previdência social e 13% pelo Bolsa Família. "Cada ponto porcentual de redução do Gini pelas vias da previdência custou 352% mais que o obtido pelas vias do Bolsa Família", defende o Ipea. Para o instituto, se a década de 1990 foi a da estabilização da economia, a de 2000 foi a da redução de desigualdade de renda.

Bolsa Família

Para a nova década, o Ipea ressalta, várias vezes, a importância do Bolsa Família como instrumento promotor da qualidade de educação, do maior protagonismo dos pobres, novas portas de entrada à cidadania e aos mercados; crédito, seguro e poupança, erradicação da miséria. " A segunda década do novo milênio parece ser a de múltiplos caminhos em direção à superação da pobreza. Diversos deles serão trilhados sobre a estrutura do Bolsa Família", conclui o estudo.

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