Desigualdade social aumentou no país

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Desigualdade social aumentou no país

Estudo mostra que 80% do aumento da renda nos últimos anos foi para os 20% detentores de maior rendimento

Cláudia Trevisan - Correspondente de O Estado de S. Paulo,

26 de abril de 2014 | 10h32

WASHINGTON - Cinco anos depois do fim da Grande Recessão, os números da economia americana contam a história de uma recuperação desigual, que beneficiou os mais ricos, castigou a classe média e os mais pobres e agravou o processo de aumento da desigualdade social iniciado há três décadas.

O resultado é uma situação esquizofrênica, na qual as bolsas batem recordes e o preço dos imóveis sobe, enquanto os adjetivos usados para descrever a expansão continuam a ser "lenta" e "anêmica".

Para muitos economistas, a origem da arrastada recuperação está no fato de que a crise acabou para os que estão no alto da escala de renda, mas continua para os demais.

A polarização se reflete na pesquisa Gallup sobre percepção de bem-estar da população americana: 54% dizem que estão prosperando, enquanto 43% acreditam que estão sofrendo e 3% aparecem no grupo intermediário, dos que estão lutando.

Apesar do crescimento econômico dos últimos quatro anos, os dados do Gallup são idênticos aos registrados em setembro de 2009, logo depois do fim da recessão.

Estudo divulgado neste mês por Aaron Cobet, do Bureau of Labor Statistics, mostra que 80% do aumento da renda entre 2008 e 2012 foi para os 20% detentores do maior rendimento, que incorporaram US$ 8.358 em média na sua coluna de receitas. Os 20% seguintes também foram beneficiados, com expansão de US$ 1.862 da renda.

Mas a situação não melhorou para os ocupantes das três faixas inferiores. Pelo contrário. Os que estão na base viram sua renda encolher em US$ 275.

O impacto da desigualdade sobre o ritmo de crescimento é revelado na maneira como cada um desses grupos usou os dólares adicionais que conseguiu desde 2008.

 

Os números mostram que o impacto sobre o consumo dos mais ricos não foi proporcional à elevação de sua renda - e o consumo responde por 70% do PIB americano. Os que estão no topo gastaram apenas US$ 2.365 dos US$ 8.358 do aumento que obtiveram, enquanto a segunda faixa despendeu US$ 1.348 dos US$ 1.862.

Já os gastos dos ocupantes das três faixas inferiores superaram os seus ganhos de renda. Isso significa que eles usaram economias ou se endividaram para financiar o consumo. Mas os seus gastos somados foi equivalente ao total despendido pelos ocupantes da segunda faixa de renda.

Cartão de crédito. Ex-secretário do Trabalho de Bill Clinton e professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, o economista Robert Reich sustenta que o aumento da desigualdade a partir do fim dos anos 70 foi um dos fatores que levaram à crise de 2008. Com baixo crescimento da renda e uma dificuldade cada vez maior para manter seu padrão de consumo, a classe média americana recorreu ao cartão de crédito e aos empréstimos bancários para fechar as contas.

A relação entre dívida e renda familiar oscilou entre 60% e 70% nos anos 70 e subiu de maneira acentuada a partir de meados da década de 80, período que também assistiu ao agravamento da desigualdade social nos EUA. O patamar atingiu o recorde de 130% em 2007, quando os americanos tinham mais dívidas do que renda. A relação diminuiu desde então e chegou a 109% no terceiro trimestre de 2013, mesmo índice registrado em 2003.

Alguns economistas sustentam que a relação ainda é insustentável, mas outros acreditam que ela está bastante próxima do equilíbrio. Na avaliação de analistas do Deutsche Bank, o índice desejável é de 104%.

Mas há indícios de que a curva pode voltar a subir, em vez de manter sua trajetória de queda. No último trimestre de 2013, a dívida das famílias aumentou US$ 241 bilhões em relação aos três meses anteriores, para US$ 11,52 trilhões. A alta de 2,1% foi a maior desde o terceiro trimestre de 2007 e parece indicar o fim do processo de redução do endividamento dos americanos.

Quando o dado foi divulgado em janeiro pelo Federal Reserve de Nova York, o economista da instituição Wilbert van der Klaauw disse que era difícil avaliar se o resultado era uma boa ou má notícia. A expansão do volume de dívidas pode indicar tanto um aumento da confiança no futuro quanto uma dificuldade de cobrir gastos em um cenário de estagnação da renda.

Na comparação com o trimestre anterior, as hipotecas responderam pela maior fatia da expansão do endividamento, com US$ 152 bilhões, o que elevou seu total a US$ 8,58 trilhões. Em segundo lugar, aparecem os empréstimos estudantis, que disparam nos últimos anos.

Nos últimos três meses de 2013, eles cresceram US$ 52 bilhões em relação ao trimestre anterior. Na comparação com igual período de 2012, a alta foi de US$ 114 bilhões, a maior entre todos os tipos de dívida. O valor representou 63% do aumento total do endividamento, de US$ 180 bilhões.

A débito acumulado pelos estudantes americanos está em US$ 1,08 trilhão, o que representa 9,4% da dívida total das famílias, de US$ 11,52 trilhões. O peso desses empréstimos é um dos fatores que está segurando esses jovens na casa de seus pais ou em repúblicas, reduzindo o número dos que criam uma nova residência ou família independente.

O comprometimento da renda futura com o pagamento dos financiamentos também deverá reduzir sua capacidade de consumo, o que pode ter impacto negativo sobre o ritmo de crescimento do país.

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