Desigualdade social avança na Europa e austeridade fiscal pode elevar pobreza

Entre 2008 e 2010, nível de desequilíbrio cresceu tanto quanto nos 12 anos precedentes, de acordo com estudo realizado pela OCDE

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2013 | 02h07

O nível de desigualdade social e de pobreza na Europa cresceu entre 2008 e 2010 tanto quanto nos 12 anos anteriores. A advertência sobre o impacto da crise e sobre o avanço da precariedade no continente mais desenvolvido do mundo foi feita na noite de ontem pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No relatório, a entidade alerta para os riscos causados pela desintegração do Estado de bem-estar social - um dos efeitos colaterais da política de austeridade fiscal que vigora na região.

De acordo com a organização, "se o Estado de bem-estar contribuiu para reduzir o choque para muitos indivíduos, novas diminuições de despesas sociais nos países da OCDE podem causar uma alta da desigualdade e da pobreza nos próximos anos". O balanço aponta que, excluídos encargos sociais obrigatórios, a renda dos 10% mais ricos nos países-membros da organização - o Brasil não faz parte - era 9,5 vezes superior à dos 10% mais pobres em 2010. Em 2007, antes da eclosão das crises do sistema financeiro e das dívidas soberanas, a renda dos 10% mais ricos era nove vezes superior à dos menos favorecidos.

O declínio da igualdade aconteceu porque entre 2007 e 2010 as famílias mais pobres perderam um porcentual maior da renda ou tiveram aumentos menores do que os mais favorecidos. Na prática, diz a OCDE, os mais ricos foram os menos prejudicados pela crise em 21 dos 33 países que compõem a organização. No intervalo estudado, a taxa média de pobreza subiu de 13% para 14% entre crianças e de 12% para 14% entre jovens, caindo só entre os idosos, que em tempos de desemprego alto são protegidos pelas pensões. "O número de indivíduos vivendo na pobreza aumentou durante a crise na maior parte dos países", diz o estudo.

Universo jovem. No que diz respeito à precariedade entre jovens, Espanha, Turquia, Bélgica, Eslovênia e Hungria registraram a piora mais acentuada. De modo geral, entre os países pesquisados a desigualdade é maior no Chile, no México, nos Estados Unidos, na Turquia e em Israel, enquanto Islândia, Eslovênia, Noruega e Dinamarca são os mais equilibrados do mundo.

"Essa constatação preocupante reitera a necessidade imperiosa de proteger os cidadãos mais vulneráveis, no momento em que os governos realizam esforços para conter as despesas públicas", afirmou em nota o secretário-geral da OCDE, Angel Gurria, que defendeu reformas fiscais que preservem as classes mais baixas. "As políticas que visam estimular o crescimento do emprego devem ser concebidas para assegurar a equidade, a eficácia e a inclusão social."

O desemprego e a desigualdade serão temas do fórum anual da OCDE, cuja edição de 2013 acontecerá nos dias 28 e 29. Além da organização, entretanto, vários governos europeus e instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), têm advertido nas últimas semanas para os efeitos sociais da estagnação econômica e das medidas de austeridade fiscais adotadas na Europa.

Preocupação geral. O assunto foi a principal pauta da última reunião de ministros da Economia e presidentes de bancos centrais do G-7, que aconteceu no último fim de semana em Aylesbury, na Inglaterra. Na oportunidade, autoridades como Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, e Jacob Lew, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, voltaram a pedir aos governos europeus que reduzam o rigor das medidas de controle fiscal e estimulem o crescimento. "Nós acreditamos muito que é preciso encontrar o bom equilíbrio entre a austeridade e o crescimento", afirmou Lew, em entrevista à rede de TV CNBC.

Hoje, o Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat) revelará o balanço parcial do crescimento na zona do euro. A expectativa de analistas é de que os 17 países que adotam a divisa única registrem seu sexto trimestre consecutivo de recessão, com uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) estimada entre 0,2% e 0,1%.

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