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Desigualdade trava o PIB, diz OCDE

Políticas devem cuidar em conjunto da produtividade e da igualdade, diz Angel Gurría; distância entre ricos e pobres é a maior em 30 anos

Rolf Kuntz ENVIADO ESPECIAL/WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2016 | 18h11

É urgente aumentar a produtividade e reduzir a desigualdade para impulsionar a economia global e tornar o crescimento mais firme, segundo o secretário geral da OCDE, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, Angel Gurría. O produto global deve crescer 3% neste ano, segundo sua projeção, no ritmo mais baixo em cinco anos e muito inferior às médias de longo prazo. Um desempenho pouco melhor, 3,2%, é a previsão do Fundo Monetário Internacional para 2016. Ao situar no topo da agenda a questão da igualdade o economista Angel Gurría, uma das principais figuras da burocracia internacional, deu um enfoque incomum ao debate.

Ele comentou a situação mundial, em tom pessimista, numa declaração preparada para a reunião do Comitê Monetário e Financeiro Internacional, o principal órgão político do FMI, formado por 24 ministros autorizados a representar todos os países. Com o recém-anunciado ingresso de Nauru, uma ilha de 21 quilômetros quadrados do Pacífico Sul, o total de membros passa a 189. O Brasil foi representado no comitê pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, pois a crise reteve o ministro Nelson Barbosa.

A distância entre ricos e pobres é a maior em 30 anos na maior parte dos países da OCDE, disse o seu diretor geral. A organização é formada por 34 países, na maior parte desenvolvidos, e por uns poucos emergentes, incluídos México e Chile. A mudança é ilustrada pela comparação da renda disponível dos 10% mais bem situados com a dos 10% da base. A diferença aumentou de 7 para 10 vezes. O desemprego, a dispersão crescente dos salários, o mau funcionamento do mercado de trabalho e alterações associadas à tecnologia explicam a mudança, segundo Gurría. Novas tecnologias, acrescentou, contribuíram de modo especial para valorizar os trabalhadores altamente especializados.

Produtividade. Ao mesmo tempo a produtividade empacou, afetando o potencial de crescimento. Entre 2001 e 2007 a produtividade média do trabalho, nos países da OCDE, cresceu 1,8% ao ano. Entre 2007 e 2013 o ritmo ficou em apenas 0,71%, menos da metade do anterior. Um relatório da organização, informou Gurría, atribui essa mudança à menor difusão das inovações. Empresas na fronteira da eficiência, acrescentou, são em média mais de 10 vezes mais produtivas que as demais, em relação ao trabalho, e de 4 a 5 vezes mais em relação à totalidade dos fatores.

Em todo o mundo, o potencial de crescimento diminuiu nos últimos anos e esse problema tem sido realçado, com insistência, em relatórios do FMI e da OCDE. A agenda proposta por Angel Gurría inclui maior esforço de inovação, maior abertura e maior flexibilidade nos mercados de produtos e de trabalho e mais investimentos na qualificação de mão de obra. É preciso proteger os trabalhadores menos qualificados, os mais vulneráveis à intensificação das pressões competitivas, mas é indispensável, ao mesmo tempo, criar condições para realocação de empresas e de empregos.

Gurría coincide com os economistas do FMI ao defender maior contribuição das políticas fiscais à retomada e à consolidação do crescimento. Para os países com alguma folga nas contas públicas, a recomendação, já formulada muitas vezes, é promover estímulos à reativação dos negócios.

As políticas de estímulo, em especial na Europa, têm dependido quase exclusivamente do afrouxamento da política monetária, com juros muito baixos e forte apoio à expansão do crédito. Essa tem sido a orientação do BCE e também do Banco da Inglaterra. Mas os bancos centrais já fizeram o possível, estão sobrecarregados.

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