Desigualdade versus pobreza

Após uma campanha atípica, Donald Trump venceu a eleição presidencial nos Estados Unidos. A vitória surpreendeu os analistas. Existia uma quase unanimidade de que a candidata do Partido Democrata, cuja campanha se concentrou em denunciar as características negativas do candidato republicano (sexismo, machismo, xenofobia, misoginia, sonegador de impostos, etc.), dando pouca ênfase às suas próprias propostas, sairia vencedora. Ao mesmo tempo, a grande mídia adotou uma postura claramente favorável à candidata democrata. Entretanto, a vitória do Partido Republicano foi total. O que aconteceu?

José Márcio Camargo, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2016 | 05h00

Existem várias explicações para a derrota democrata. Contudo, gostaria de enfatizar um aspecto que me parece de fundamental importância: o fato de o Partido Democrata ter abandonado sua base histórica – os trabalhadores sindicalizados, principalmente do setor industrial – para se transformar no partido das “minorias” (hispânicos, negros, mulheres, grupos LGBT, apoiadores do aborto, etc.). E isso aconteceu exatamente no pior momento para estes trabalhadores, quando o processo de globalização atingiu seu auge.

Desde o início do processo de globalização, no final dos anos 1950, os países desenvolvidos do Ocidente viram suas indústrias entrarem em decadência em razão da incapacidade de competir com a indústria asiática (Japão, Coreia do Sul, etc.) e de outros emergentes. E a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) no final dos anos 1990 praticamente dizimou o setor industrial no Ocidente, inclusive nos Estados Unidos, e eliminou a maior parte dos empregos industriais nestes países (somente a indústria da Alemanha foi preservada).

Enquanto a economia mundial crescia a taxas próximas a 7% ao ano, em razão do aumento do fluxo de comércio, a expectativa de ascensão social e a redução da pobreza, foi possível manter a situação sob controle. Porém, a partir da crise financeira de 2008/2009, a queda do crescimento simplesmente acabou com qualquer esperança para estes trabalhadores.

Simultaneamente, a globalização reduziu de forma espetacular os níveis de pobreza, principalmente, mas não só, nos países emergentes (bilhões de pessoas saíram da condição de pobreza ao longo dos últimos 50 anos) e reduziu a desigualdade em nível global.

Ao abandonar sua antiga base, o Partido Democrata criou um vácuo que foi preenchido por Trump, com propostas de aumento do protecionismo e isolacionismo, introdução de tarifas de importação e restrição à imigração. A promessa é de que tais medidas vão trazer de volta as indústrias e os empregos que migraram para os países emergentes.

A experiência histórica mostra que isso é praticamente impossível. O mais provável é que, ao aumentar as tarifas de importação, os Estados Unidos se defrontem com reações dos países afetados, com retaliações comerciais cujo desfecho final poderá se transformar em guerra comercial, redução do fluxo de comércio, estagnação e/ou recessão, como ocorreu ao longo dos anos 30 do século passado.

O que é realmente perturbador na eleição de Donald Trump (e no Brexit e no isolacionismo na Europa) é que uma política que tirou bilhões de seres humanos da pobreza, principalmente (mas não apenas) nos países pobres, e foi uma das principais forças que levaram à queda do Muro de Berlim e ao fim da União Soviética esteja sendo demonizada por ter aumentado a desigualdade nos países ricos. Se este movimento antiglobalização vencer, será a vitória do autoritarismo e da desigualdade sobre a democracia, o crescimento e a pobreza.

PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO, É ECONOMISTA DA OPUS GESTÃO DE RECURSOS

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