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Desigualdades

Há seis anos o Crédit Suisse, anualmente, publica um relatório sobre a riqueza mundial. Ano após ano verificamos que as desigualdades aumentam irremediavelmente na maioria dos países e que a crise, bem longe de acabar com o fosso que separa ricos e pobres, pelo contrário o aumenta.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2015 | 05h00

Certamente esse defeito dos sistemas econômicos é reconhecido há muito tempo. Mas com frequência ele é explorado para fins demagógicos ou ideológicos. Nesse ponto, o Crédit Suisse, que aprecia mais os ricos do que os pobres, está acima de qualquer suspeita. Se apresenta um dado, esse dado é exato. E merece, portanto, ser ouvido. Alguns exemplos: “a metade da riqueza mundial pertence hoje a 1% da população do planeta”. E a fortuna da classe média avançou em 2014 menos rapidamente do que as mais ricas.

Tomemos como exemplo a Índia, conhecida por ser a economia que mais rápido cresce no planeta. Mas o sociólogo Sachim Kumar Jain mostra que esse crescimento só beneficia os ricos. “Em 2000, 1% da população indiana adulta detinha 37% das riquezas nacionais. Em 2005, eram 43%. Em 2010, 48,6% e em 2014, 49%.”

A África, o continente mais pobre do mundo, está em primeiro lugar na corrida para a desigualdade. Sete dos países onde ela é mais flagrante estão na África, sobretudo na África Austral. Em 2014, a região contava com 19 bilionários em dólares, de acordo com a revista Forbes. Na Nigéria, a fortuna dos bilionários representava, em 2014, 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No Quênia, país de 40 milhões de habitantes, 62% da riqueza da nação está nas mãos de oito mil pessoas.

O famoso economista Thomas Piketty estudou o caso da África do Sul, que faz parte do Brics. Nesse país, 65% da riqueza está concentrada nas mãos de 10% da população. No Brasil, entre 50% e 55% da riqueza pertence a 10% da população. Nos Estados Unidos, a proporção é de 40% a 45%. E na Europa de 30% a 35%. Observemos que, no tocante à África do Sul, a camada de 1% a 5% dos mais ricos é composta de 80% de brancos!

Um país que está quase no topo em se tratando de desigualdade é a China comunista. É verdade que, com uma sorte de gênio, o país conseguiu adicionar às delícias (ou aos horrores) do comunismo, os horrores (ou as delícias) do capitalismo.

Hoje, o país conta com mais bilionários do que os Estados Unidos e abriga mais de um milhão de milionários. A desigualdade hoje na China comunista é bem maior do que nos Estados Unidos.

O que enerva o poder central em Pequim é que os “ricos” não têm modéstia nem pudor. Em Xangai, em outubro, o casamento entre a atriz Angelababy e o ator Huang Xiaoming custou ¤ 30 milhões.

Assim, os responsáveis de Pequim prepararam um plano em duas partes. De imediato vão tentar camuflar um pouco a ostentação e as extravagâncias dos ricos. Por exemplo, os dignatários privilegiados do regime não terão mais direito de jogar golfe. Numa segunda etapa, o plano quinquenal a ser lançado em 2016 pretende reduzir as desigualdades. Boa sorte! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Há seis anos o Crédit Suisse, anualmente, publica um relatório sobre a riqueza mundial. Ano após ano verificamos que as desigualdades aumentam irremediavelmente na maioria dos países e que a crise, bem longe de acabar com o fosso que separa ricos e pobres, pelo contrário o aumenta.

Certamente esse defeito dos sistemas econômicos é reconhecido há muito tempo. Mas com frequência ele é explorado para fins demagógicos ou ideológicos. Nesse ponto, o Crédit Suisse, que aprecia mais os ricos do que os pobres, está acima de qualquer suspeita. Se apresenta um dado, esse dado é exato. E merece, portanto, ser ouvido. Alguns exemplos: “a metade da riqueza mundial pertence hoje a 1% da população do planeta”. E a fortuna da classe média avançou em 2014 menos rapidamente do que as mais ricas.

Tomemos como exemplo a Índia, conhecida por ser a economia que mais rápido cresce no planeta. Mas o sociólogo Sachim Kumar Jain mostra que esse crescimento só beneficia os ricos. “Em 2000, 1% da população indiana adulta detinha 37% das riquezas nacionais. Em 2005, eram 43%. Em 2010, 48,6% e em 2014, 49%.”

A África, o continente mais pobre do mundo, está em primeiro lugar na corrida para a desigualdade. Sete dos países onde ela é mais flagrante estão na África, sobretudo na África Austral. Em 2014, a região contava com 19 bilionários em dólares, de acordo com a revista Forbes. Na Nigéria, a fortuna dos bilionários representava, em 2014, 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No Quênia, país de 40 milhões de habitantes, 62% da riqueza da nação está nas mãos de oito mil pessoas.

O famoso economista Thomas Piketty estudou o caso da África do Sul, que faz parte do Brics. Nesse país, 65% da riqueza está concentrada nas mãos de 10% da população. No Brasil, entre 50% e 55% da riqueza pertence a 10% da população. Nos Estados Unidos, a proporção é de 40% a 45%. E na Europa de 30% a 35%. Observemos que, no tocante à África do Sul, a camada de 1% a 5% dos mais ricos é composta de 80% de brancos!

Um país que está quase no topo em se tratando de desigualdade é a China comunista. É verdade que, com uma sorte de gênio, o país conseguiu adicionar às delícias (ou aos horrores) do comunismo, os horrores (ou as delícias) do capitalismo.

Hoje, o país conta com mais bilionários do que os Estados Unidos e abriga mais de um milhão de milionários. A desigualdade hoje na China comunista é bem maior do que nos Estados Unidos.

O que enerva o poder central em Pequim é que os “ricos” não têm modéstia nem pudor. Em Xangai, em outubro, o casamento entre a atriz Angelababy e o ator Huang Xiaoming custou ¤ 30 milhões.

Assim, os responsáveis de Pequim prepararam um plano em duas partes. De imediato vão tentar camuflar um pouco a ostentação e as extravagâncias dos ricos. Por exemplo, os dignatários privilegiados do regime não terão mais direito de jogar golfe. Numa segunda etapa, o plano quinquenal a ser lançado em 2016 pretende reduzir as desigualdades. Boa sorte! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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