Desindustrialização, os números não mentem

Quando começamos a chamar a atenção para o risco de desindustrialização, há mais de três anos, alguns analistas econômicos, integrantes do governo, e até mesmo algumas lideranças empresariais consideravam as nossas análises e estudos exagerados ou pessimistas. Infelizmente, é possível comprovar que o sinal de alerta ecoado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) tem fundamento e o que se vê, em todos os canais de mídia, são matérias e mais matérias dando conta do processo de desindustrialização, que já é uma realidade no Brasil.

Luiz Aubert Neto,

27 de abril de 2011 | 00h35

É verdade que a economia está aquecida e seu crescimento, sendo puxado pelo forte consumo do mercado interno. Mas o consumo vem sendo atendido cada vez mais por produtos importados. Há uma verdadeira invasão desses produtos, e a maioria deles vem da China. A consequência disso é que o Brasil vai ficando cada vez mais defasado em inovação e desenvolvimento tecnológico, um retrocesso, já que as indústrias de média e de alta tecnologia são de fundamental importância para uma nação que busca o desenvolvimento.

O Brasil está priorizando a exportação de commodities em detrimento dos bens de maior valor agregado. Para ter uma ideia, cerca de 75% da soja produzida no País é destinada ao mercado externo, enquanto as exportações do farelo de soja, que tem maior valor agregado, caem ano a ano; 90% da produção de celulose é destinada às exportações, enquanto mais de 50% do papel consumido no Brasil é importado; o minério de ferro, que é o insumo utilizado para produzir aço, é um dos principais itens da nossa pauta de exportações, mas a balança comercial dos setores que têm o aço como principal matéria-prima (automóveis, máquinas, equipamentos, etc...) é totalmente deficitária. As exportações de petróleo cru representam cerca de 10% das exportações, enquanto a importação de derivados de petróleo é a maior responsável pelo déficit da balança comercial brasileira. Isso faz com que o déficit dos setores supramencionados seja superior a US$ 100 bilhões e a consequência é a deterioração acelerada da balança comercial brasileira.

O déficit da balança comercial de máquinas e equipamentos não deixa dúvidas de que a desindustrialização vem a galope. De 2005 a 2010, o déficit acumulado já é de US$ 45 bilhões. O consumo aparente (máquinas consumidas no Brasil) era composto, em 2005, por 60% de máquinas nacionais e 40% de máquinas importadas. Em 2010 essa conta se inverteu, e 60% do consumo foi de máquinas importadas, ante apenas 40% de máquinas nacionais. Será que isso não é desindustrialização?

Essa perda de competitividade não ocorre por ineficiência das empresas nacionais, pois, historicamente, cerca de 30% da produção de máquinas e equipamentos é destinada ao mercado externo. Logo, podemos concluir que a indústria brasileira é competitiva e que o Brasil é que não é competitivo! Nunca é demais lembrar que o "custo Brasil" impõe à indústria nacional uma perda de competitividade da ordem de 43%, isso em relação à Alemanha e os Estados Unidos, sem comparar com a China. Além disso, temos a alta carga tributária, os elevados encargos sociais, os juros mais altos do mundo e o câmbio, considerado o componente mais pernicioso dessa equação. A atual taxa de câmbio, além de escancarar as portas para as importações e inviabilizar as exportações, inibe a intenção de investimento no setor produtivo, pois faz com que os investimentos especulativos sejam muito mais atraentes.

Mas, apesar desse cenário extremamente preocupante, há grandes oportunidades pela frente e acreditamos ainda ser possível reverter este quadro. Ainda dá tempo, mas os governos precisam entender, urgentemente, que a indústria de transformação está agonizando, correndo sério risco de extinção. Não estamos pleiteando subsídios ou favores, queremos apenas isonomia para concorrer em condições de igualdade com os produtos estrangeiros. Do contrário, continuaremos a ser o país das oportunidades perdidas.

PRESIDENTE DO SISTEMA ABIMAQ

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