JF DIORIO/ESTADÃO
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Desmate ilegal impede avanço da certificação

Área certificada da Amazônia não cresce desde 2007; cobrança de selo de origem deve partir do consumido

Natália Cacioli, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2015 | 03h00

Cristiano Valle é um empresário paulista que cresceu numa época em que o progresso da Amazônia era associado ao desmate para plantar ou criar gado – floresta em pé não podia dar dinheiro. Mais velho e cansado de ver a floresta cair, ele criou, em 2003, a Tora Brasil, uma loja de móveis que usa madeira legal retirada da Amazônia.

O objetivo principal é explorar os recursos da floresta para preservá-la. Com uma técnica chamada manejo florestal, é feito um corte seletivo que respeita o ciclo de vida da floresta, que leva pode levar mais de 30 anos. 

Cristiano compra madeira de produtores que fazem o manejo e também aproveita árvores ocas, que seriam desprezadas nas serrarias. 

O manejo florestal poderia ser utilizado para aproveitar todo o potencial econômico da Amazônia, mas a concorrência desleal com madeireiros ilegais e burocracia excessiva afastam empresários. 

Proprietário da Ecolog, empresa que fabrica madeira para móveis e construção civil, Fabio de Albuquerque faz manejo florestal em uma área de 30 mil hectares em Rondônia. Há dois eles, ele está com a produção parada e o estoque, cheio. “Meu preço pode ser 10% ou 20% maior porque eu preservei a mata, os rios, paguei todos os impostos”, diz. “Não consigo competir com o ilegal que não faz nada disso”.

Com tantos problemas, a certificação de manejo florestal da FSC está praticamente estagnada desde 2007, atualmente com uma área de 1,4 milhão de hectares. E, somente no ano passado, o desmatamento na Amazônia Legal foi equivalente a um terço dessa área.

Mas esses produtores são movidos por ideologia. Segundo a FSC, o principal motivo que leva à certificação dessas empresas são os princípios pessoais (56%). E o que eles mais pedem é o reconhecimento pelo trabalho que fazem: para 67%, a maior desvantagem é o desconhecimento das pessoas sobre o valor social e ambiental da certificação, e não a concorrência desleal e a falta de fiscalização.

Para Albuquerque, conter o desmatamento depende mais da cobrança dos consumidores do que de políticas públicas. Valle concorda: “Faço esse trabalho porque quero deitar minha cabeça no travesseiro sem culpa.” Segundo ele, isso só irá acontecer no dia em que não aparecerem clientes pedindo para comprar móvel sem nota fiscal. 

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