Lilian Cunha/Estadão
Lilian Cunha/Estadão

Despedida da Etna tem filas, falta de produtos e ‘melancolia’ de clientes

Lojas ficaram lotadas desde que a megaliquidação de encerramento de atividades da rede de móveis e decoração foi anunciada, na semana passada

Lílian Cunha, Especial para O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2022 | 10h00

“Vim para me despedir”, diz a advogada Sabrina Chiriatto, 27 anos. “Comprei todos os móveis do meu escritório aqui. Vou sentir muitas saudades da loja”, disse ela, que foi à Etna da Avenida Dr. Chucri Zaidan, em São Paulo, com uma amiga, a arquiteta Mariana Silva, de 25 anos, para dizer adeus à rede de móveis e decoração da família Kaufman (também proprietária da Vivara), que anunciou o fim de suas atividades na semana passada.

Depois de 17 anos no mercado, e de algum tempo tentando achar um investidor para concorrer de frente com a Tok&Stok, a companhia decidiu jogar a toalha. Restam hoje quatro lojas físicas e uma plataforma de comércio eletrônico. Na capital paulista, as lojas físicas já fecharam, com exceção da unidade da avenida Dr. Chucri Zaidan, onde a empresa faz uma anunciada queima de estoques, com descontos de até 90%.

Mas não está sendo fácil para ninguém aproveitar esses últimos dias da Etna. Sabrina e Mariana, por exemplo, ficaram tanto tempo na fila para entrar na garagem da loja que, na hora “H”, a bateria do carro arriou. “Tivemos de empurrar o carro para dentro do estacionamento”, disse Sabrina, que cruzou a cidade, da zona leste até o Brooklin, para conferir os descontos. A rotina de lojas cheias se repete desde sábado, com consumidores se acotovelando para levar uma “lembrancinha” da rede.

Para as duas amigas, compensou: elas encheram o carrinho com pratos, roupa de cama e uma cadeira de escritório que saiu por R$ 200. O preço original era R$ 499, mas, com os descontos progressivos, o preço foi caindo. A loja está dando 10% de desconto extra para quem gasta a partir de R$ 1 mil. A redução vai subindo e chega até a 30% para valores superiores a R$ 5 mil.

 

Teste de paciência

O problema é na hora de pagar: houve quem ficasse mais de duas horas na fila. A loja – que não tem mais os ambientes decorados e com muitas das prateleiras já vazias – vem abrindo praticamente um dia sim e outro não. Na quinta-feira (31), depois de repor os estoques no dia anterior, abriu às 13h.

Antes do meio-dia já tinha gente esperando para entrar. Às 14h, o congestionamento na avenida para entrada no estacionamento já tinha quase 800 metros.

E teve dias em que a loja abriu mas fechou horas depois, para impedir maior lotação. Os funcionários contaram que todo o estoque em exposição foi comprado. “Abrimos às 13h e antes das 15h já fechamos porque não tinha mais mercadoria. Os clientes ficaram dentro da loja, na fila para pagar. Teve gente que ficou mais de três horas nessa espera”, conta um funcionário que não quis se identificar. “Tenho seis anos de trabalho aqui na Etna. Tem colegas meus com mais de 13 anos. Vamos ficar todos desempregados. É uma pena também, porque gostávamos da loja.”

Uma das clientes que foi “barrada” na Etna é a bancária Tamires Rodrigues, 23 anos. “Vim no domingo, 27, e a loja já tinha fechado”, conta ela, que aproveitou um dia de férias para fazer compras na loja. “Aí vim na segunda-feira (28) e também não consegui entrar. Tentei de novo ontem, estava fechada para reposição. Hoje, cheguei cedo e consegui”, conta ela, que se casa em novembro. Comprou um sofá e também cortinas.

 

E vale a pena?

A reportagem do Estadão conferiu os descontos na loja. Quem foi atrás de móveis encontrou bons descontos: um sofá de dois lugares estava de R$ 5.199 por R$ 3.999 e ainda teria 30% adicionais. O preço final seria de R$ 2.799. Uma cadeira estilo Wassily estava de R$ 1.799,99 por R$ 1.439,99. Com o desconto adicional de 10%, saía por R$ 1.295,99.

Os maiores descontos, porém, eram em itens pequenos, como utensílios de cozinha. Um par de raladores de queijo, por exemplo, estava de R$ 69,99 por R$ 34,99 – 50% de desconto. Um saleiro – o item mais barato encontrado – baixou de R$ 7,99 para R$ 1,99 com 75% de desconto.

“Tem ofertas muito boas, principalmente se você aproveitar os progressivos. Mas também tem pegadinha”, conta Andrea Reis, 45 anos, dona de casa. Ela foi atraída por um cartaz que mostrava uma máquina seladora de embalagens, de R$ 799 por R$ 299. “Coloquei no carrinho, mas não vou levar: pesquisei o preço e vi que na internet custa, na verdade, R$ 270.”

 

Já com saudades

Mesmo assim, Andrea diz que vai se sentir órfã da loja, do mesmo jeito que ficou quando a Leroy Merlin fechou a rede de produtos para casa Zôdio, em 2019. “É mais uma loja que vai ficar na nossa memória, como o Mappin”, afirma.

A arquiteta Ursula Lima, 49 anos, gostava de passear na Etna regularmente, até por conta de sua profissão. “Eu dava uma volta na loja, comprava o que achava legal. E, na saída, ainda comia um cachorro quente que custava R$ 1,50”, lembra. Na casa dela, o sofá, as cortinas, os tapetes de banheiro, uma poltrona, uma mesinha de apoio – tudo é da Etna. “Encontrava muita oferta, principalmente no outlet. Vai ficar na saudade.”

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