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Desperdiçando as taxas negativas de juros

A redução do custo do capital a níveis excepcionalmente baixos deveria estimular o crédito

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 04h00

Neste mundo de estagnação secular, é provável que nos próximos dois anos as economias desenvolvidas continuarão a ter taxas de juros negativas e o custo do capital para as empresas seguirá sendo muito baixo. 

Essa conjuntura global é um presentão para o Brasil. Já que a nossa taxa de poupança é baixíssima, só seremos capazes de reconstruir o estoque de capital necessário para crescer a base de muito financiamento externo. A pergunta então é o que temos de fazer para que a armadilha da liquidez global trabalhe a nosso favor, financiando os investimentos e o crescimento no Brasil? O corte de 1,00% na taxa Selic para 5,50% é um bom início, mas por si só, será incapaz de aumentar a taxa de crescimento do PIB. 

A redução do custo do capital a níveis excepcionalmente baixos deveria estimular o crédito, os investimentos e o crescimento econômico no Brasil. Além disso, o País ainda tem uma alta capacidade de absorção de financiamento externo porque o nosso déficit em transações correntes (1,8% do PIB) está abaixo do nível compatível (3,0% do PIB) com a viabilidade do balanço de pagamentos.

Há três maneiras de capturarmos esse excesso de poupança externa e beneficiar-nos das taxas de juros negativas no mundo. A primeira, é ter um arcabouço macroeconômico capaz de atrair grandes quantidades de investimento direto estrangeiro, como por exemplo para reconstruir a nossa precária infraestrutura. 

O segundo é através do endividamento das empresas brasileiras no exterior, já que hoje, o financiamento com dívida é mais barato do que com ações. Os dois obstáculos são o excesso de alavancagem de algumas de nossas empresas e o fato de que o descasamento cambial de uma organização que gera receita em reais pode ser fatal.

O terceiro é que as empresas brasileiras emitam ações no exterior, mas isso seria mais caro do que emitir dívida externa. Uma outra saída seria um programa de investimentos públicos financiados por dívida externa, mas isso é inviável porque a dívida pública é muito alta e, comparado com o setor privado, o governo é ineficiente para investir e alocar recursos econômicos. 

O que falta para nos beneficiarmos desse custo de capital externo tão baixo? Primeiro, reconstruir a transmissão e a embreagem do motor do crescimento econômico. O segundo é viabilizar politicamente e implementar algumas das boas ideias da equipe econômica. 

A primeira opção é mais realista, já que nestes dez meses em Brasília o governo demonstrou ter sérias limitações para gerir um país tão complexo como o Brasil. Portanto, só nos resta reconstruir o motor e a transmissão do crescimento econômico. 

O ganho potencial a ser realizado é extraordinário. Um bom exemplo é utilizar um modelo de determinação do preço de uma ação de uma empresa que cresce perpetuamente a uma taxa de crescimento constante g. Nesse modelo, o preço da ação da empresa é o seu fluxo de dividendos dividido pela diferença entre o custo de capital e o crescimento g. As empresas só investirão se o crescimento da economia for capaz de gerar o crescimento g dos dividendos. O baixo custo do capital reduz o denominador da fração, o que aumenta o preço das ações e estimula as empresas a investir.

Para que isso funcione, o governo tem de implementar um programa econômico mais ambicioso e que seja capaz de (a) resolver o problema fiscal; (b) implementar reformas estruturais que aumentem a produtividade total dos fatores e o crescimento; e (c) estimular a confiança dos empresários e dos consumidores e reduzir o ruído político. Apesar de ter boas ideias, o governo ainda não articulou de forma clara o seu programa econômico de curto – e longo prazo. E, o que é mais grave, não há uma embreagem que seja capaz de transformar ideias em resultados. 

A outra peça imprescindível da transmissão para o motor do crescimento é uma reforma e o aumento da concorrência no setor bancário. Dessa forma, o Banco Central seria capaz de intermediar um maior volume de liquidez e crédito de maneira mais eficiente e diminuir os spreads bancários. Isto é essencial para estimular os investimentos das empresas e o consumo das famílias.

A musculatura do nosso sistema político é frágil para administrar o que sob o ponto de vista econômico é tecnicamente fácil, mas que politicamente é difícil de implementar. Assim sendo, corremos o risco de desperdiçar essa bonança de taxas de juros negativas no mundo. 

*PROFESSOR DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

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