Mary Turner/New York Times (2/10/2019)
Mary Turner/New York Times (2/10/2019)

Destino do Eurostar é incerto com Brexit

Há 25 anos, trem de alta velocidade ajuda a integrar países da UE, mas isso deve mudar

Matina Stevis-Gridneff, The New York Times

20 de novembro de 2019 | 04h00

LONDRES - Enquanto o trem de alta velocidade faz sua travessia sob o Canal da Mancha, Mujtaba Rahman digita freneticamente um e-mail e o envia no seu smartphone. Logo depois de passar por um trecho escuro que bloqueia por algum tempo seus ouvidos e a recepção do celular, o trem começa a atravessar os campos da França. “Esse tempo entre a entrada e a saída do túnel é um bom momento para refletir.”

E atualmente ele vem refletindo muito sobre o Brexit. Rahman trabalhou anteriormente para o governo britânico, ajudando a aproximar ainda mais os destinos do seu país ao da União Europeia. Hoje, ele assessora clientes privados e os aconselha quanto aos riscos da saída da Grã-Bretanha da UE.

Ele faz parte de um grupo de advogados, economistas, jornalistas e especialistas em comércio que ajudaram a tornar o trem de alta velocidade conhecido como Eurostar a encarnação da ideia do mundo quase sem fronteiras almejado pela UE.

Ironicamente, o Eurostar, que completou 25 anos recentemente, se tornou o principal veículo que utilizam para suas viagens de ida e volta cuja finalidade é desfazer um vínculo que antes ajudaram a construir.

Para aqueles que vivem em Londres, o Eurostar tornou os fins de semana em Paris (ou Bruxelas, ou hoje até Amsterdã) – e vice-versa – algo simples, rápido e relativamente acessível. Permitiu a uma classe de profissionais ir e vir por um canal que outrora servia como um fosso – de proteção ou de isolamento –, dependendo da perspectiva do viajante.

Hoje, entre os passageiros regulares estão os britânicos que negociam a saída do seu país da UE e que, com frequência, viajam duas vezes por semana para Bruxelas para conversações envolvendo esse divórcio. E há outros, como Rahman, cuja vida profissional gira em torno desses vínculos que estão sendo cortados.

Se o Brexit finalmente ocorrer, como é provável, a comodidade da viagem, hoje sujeita a um rápido controle de imigração para os que detêm um passaporte da União Europeia, deverá mudar. O destino do próprio trem pode estar na corda bamba. No momento, os executivos que o administram observam e aguardam.

As passagens ainda são vendidas rapidamente. Em agosto o número recorde de um milhão de passageiros viajou no Eurostar. A companhia reportou lucros crescentes em 2017 e 2018 e intensificou seu marketing, impulsionada pela demanda americana e uma preferência cada vez maior pelas viagens mais responsáveis com o meio ambiente. Mas o futuro do Eurostar dependerá muito do que será o Brexit. E uma saída sem acordo poderá ser desastrosa para os negócios.

Cenário adverso

Documentos vazados para a imprensa este ano sugerem que um Brexit sem acordo ou “duro”, que deve estabelecer controle mais demorado de passaportes pelas autoridades francesas, implicará longas filas de 15 mil em St. Pancras, a principal estação ferroviária em Londres, servida pelo Eurostar. Autoridades e especialistas preveem que a companhia não sobreviverá mais de 12 semanas num cenário tão adverso.

Mas para o Eurostar esse cenário catastrófico é “equivocado”. “Temos trabalhado com os governos de ambos os lados do canal, incluindo os Departamentos de Transportes, de modo a garantir a continuação da operação em caso de acordo ou não acordo”, afirmou Rosie Jones, porta-voz da companhia. “O Eurostar trabalha com seus parceiros, governos e autoridades de controle dos dois lados do canal para assegurar que planos robustos sejam implementados para proteger os serviços e gerir o fluxo de passageiros de modo eficiente”, acrescentou.

No momento, o Eurostar vai e volta diariamente, fazendo sua travessia sob o canal, levando viajantes para as capitais europeias. Vidas privadas e profissionais se constituíram e se desenvolveram nessa ligação.

A vida adulta inteira de Rahman é um exemplo disso. Britânico de nascimento, ele rapidamente se interessou pela elaboração de políticas da UE e se especializou no assunto na universidade. Ele diz que as sementes do Brexit foram plantadas desde o início do relacionamento da Grã-Bretanha com a União Europeia. 

“A Grã-Bretanha sempre procurou extrair os benefícios econômicos da sua adesão ao clube, mas sem arcar com as consequências políticas”, disse ele. “O país quis manter sua soberania o máximo possível e jamais aderiu à integração política.”

Rahman gosta do tempo que passa no trem, afirmou ele numa viagem recente quando o trem entrou no Eurotúnel, passagem sob o canal que liga a Inglaterra à França, uma proeza de engenharia e o mais longo corredor ferroviário submerso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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