Dado Ruvic/Reuters
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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

Destruição criativa em tempos de covid

Com o mundo de ponta-cabeça, espíritos empreendedores já estão em atividade; alguns são altruístas, outros atrevidos

The Economist*, O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2020 | 05h00

A Airbnb, que luta com problemas financeiros, chamava-se ainda AirBed&Breakfast quando os fundadores decidiram apostar o seu futuro no Comitê Nacional Democrata em Denver, em 2008. O seu ‘air-bed’ não era ainda muito conhecido pelas 80 mil pessoas convocadas para escolher um candidato à presidência. Por isso, eles se concentraram no café da manhã, e venderam caixas de cereais matinais “Obama O’s” e “Cap’n McCain’s”, a US$ 40 (a brincadeira era: “Seja um empreendedor de cereal”).

O momento escolhido era tão ruim quanto o jogo de palavras. Aconteceu a poucas semanas do colapso do Lehman Brothers, no ápice da crise financeira de 2007-09. No entanto, em pouco tempo, eles conseguiram o seu primeiro financiamento. O investidor que os apoiou os apelidou de “baratas”, por sua capacidade de sobrevivência.

Talvez não seja uma ideia de bom gosto descrever pessoas do ramo da hospedagem dessa maneira. Os fundadores, entretanto, a consideraram o maior elogio jamais recebido.

Como a Airbnb, alguns dos nomes mais conhecidos nos negócios começaram durante crises agudas, como o Uber (2009), Microsoft (1975), Disney (1923), General Motors (1908) e General Electric (1890). Produtos e serviços revolucionários, também, surgiram em tempos de crise, como o iPod da Apple, na época do estouro da bolha das ".com", em 2000,e o Taobao da Alibaba, um centro comercial online, durante a epidemia da SARS na China, em 2003.

Estas histórias ganharam amplo espaço no folclore das startups como prova da verdadeira garra do empreendedorismo. Entretanto, são raridades. Os nossos cálculos indicam que entre quase 500 das maiores empresas cotadas hoje nos Estados Unidos, cujas origens datam de 1857, um número muito maior nasceu nos anos da expansão econômica e não durante as recessões. 

Das que foram fundadas a partir de 1970, mais de 80% surgiram em tempos ótimos. Isto, evidentemente, não leva em conta inúmeras firmas criadas ao longo do caminho que ou não chegaram ao topo, ou ficaram na beira do caminho. Mas isto sugere que, por mais duro que seja para o empreendedor criar um negócio duradouro, é ainda mais difícil para os que começaram com os ventos da economia soprando em seus rostos.

Com a exceção de alguns setores como saúde, pode-se supor que os investimentos em inovação despencarão durante a pandemia do covid-19. Em geral, é o que acontece em tempos de crise. Além disso, o capital de risco secará se todos mantiverem as cabeças baixas e tentarem proteger o dinheiro.

Em 2007-09, o capital de risco que financiava os EUA caiu quase 30%. Entretanto, esta coluna não teria o nome de Josef Schumpeter, o pai da destruição criativa, se não acreditasse que, em geral, depois de uma crise, há sempre uma explosão de empreendedorismo. Como ele escreveu em The Theory of Economic Development, publicado em 1911 (outro ano marcado pela recessão), “a própria lógica do sistema capitalista (é que) depois de um período de depressão, novos empreendedores surgirão. 

E então haverá mais uma “multidão” de empreendedores. Haverá uma onda de prosperidade e todo o ciclo começará.” Pressupondo que seja este o caso, os protagonistas serão minúsculas startups vindas de não se sabe onde? Serão empreendedores melhor financiados que se prepararam há muito tempo para este momento? Ou serão os titãs da tecnologia?

Com o mundo de ponta-cabeça, espíritos empreendedores já estão em plena atividade. Alguns deles são altruístas – crianças de escolas, por exemplo, imprimiram viseiras plásticas em 3-D para os trabalhadores da linha de frente. Alguns são atrevidos como os amantes da fitness tailandeses, que ficaram desempregados com o lockdown, e no mês passado criaram a Bsamfruit Durian Delivery, promovendo-a no Facebook, não apenas com fotos de frutas exóticas e mangas, mas também de abdomens sarados e peitos estufados. 

Alguns deles simplesmente estão sedentos de fama e fortuna, e acreditam, como Michael Moritz da Sequoia Capital, uma empresa de capital de risco, que as mudanças sociais, aceleradas pela crise, como delivery de refeições, telemedicina e educação online, acabarão gerando oportunidades comerciais lucrativas.

Eles também esperarão que a crise econômica aniquile os atuais empreendedores, cale a concorrência e libere espaço e mão de obra – desde que os governos não decidam interferir com um processo inevitável criando empresas zumbis que precisam de ajuda para sobreviver.

Mas mesmo com as melhores ideias do mundo, os empreendedores de primeira viagem terão dificuldade para convencer os investidores a dar-lhes o capital necessário no momento pior da crise, principalmente se só os encontrarem no Zoom. Ao contrário, as mais prováveis defensoras da destruição criativa serão as empresas atuais, ainda que pequenas, que captaram dinheiro suficiente antes da crise para sobreviver a ela, e manterão o seu gosto pela inovação até o fim, diz Daniele Archibugi, da Universidade de Londres, em Birkbeck. 

É possível que existam inúmeras destas empresas. Segundo a Crunchbase, que reúne dados da economia, as startups captaram cerca de US$ 600 bilhões no mundo todo em 2018 e 2019, o que proporciona um respaldo considerável. 

No entanto, eles terão que ser rápidos em mudar do crescimento para a sobrevivência (e voltar de novo) e adotar novos planos de negócios se os antigos não forem mais viáveis.

A aposta em um acumulador

Entretanto, não são apenas as empresas pequenas e desorganizadas que insistem na inovação futura. Também as grandes companhias têm um papel crucial a desempenhar. Juntamente com a destruição criativa em tempos de crise, os acadêmicos da linha de Schumpeter apontam para a “acumulação criativa” nas fases de crescimento da economia, quando a inovação crescente se dá nos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de gigantescas corporações. 

Na Europa, durante a crise financeira global, tais corporações aumentaram os investimentos em novos produtos e ideias, assim como as pequenas empresas mais inovadoras. As gigantes da tecnologia dotadas de enormes recursos, Microsoft, Amazon, Apple e Alphabet, tornaram-se exemplos de acumulação criativa, contribuindo para fomentar a inovação em tempos mais propícios. Provavelmente elas continuarão a fazê-lo durante a crise. Enquanto elas se  expandem no campo da saúde, tecnologia financeira e outros setores, poderão até fazer parte de uma nova onda de destruição criativa.

Este é o cenário otimista. O cenário mais pessimista é aquele em que a grande tecnologia usará seus recursos e poder para asfixiar a concorrência, adquirindo ou expulsando rivais mais empreendedoras. Entretanto, não há dúvida de que a crise do covid-19, que virou de ponta cabeça as vidas de tantas pessoas, acabará produzindo um grande número de novas oportunidades de negócios. Se isto atrair uma grande quantidade de empreendedores rastejando sobre dos confortáveis oligopólios, muito melhor. Mas mesmo que os titãs da tecnologia predominem, por ora, inevitavelmente acabarão vítimas das forças da mudança.

O “perene vendaval da destruição criativa” de Schumpeter, em algum momento, as destruirá também.

*© 2020 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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