Destruída, Régis Bittencourt espera pelos espanhóis da OHL

Motoristas têm pneus estourados e rodas avariadas no trecho de 200 km entre Miracatu e divisa com o Paraná

José Maria Tomazela, REGISTRO (SP), O Estadao de S.Paulo

05 de dezembro de 2007 | 00h00

Uma das estrelas do leilão de concessões rodoviárias do governo federal realizado em outubro, a Rodovia Régis Bittencourt (BR-116), entre São Paulo e Curitiba, está em frangalhos. Buracos e crateras se sucedem nos quase 200 km entre a Serra do Cafezal, em Miracatu, e a divisa com o Paraná, em Barra do Turvo. A rodovia é a principal ligação entre Sudeste e Sul do País e também é conhecida como a Rota do Mercosul, escoando quase um terço do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O governo federal privatizou, mas a empresa que venceu o leilão, a espanhola OHL, ainda não assumiu: o contrato só será assinado em fevereiro de 2008. Os caminhões de carga trafegam pelo acostamento para fugir dos buracos, pondo em risco a vida de pedestres e ciclistas. O que mais se vê são veículos parados com rodas e pneus arrebentados - e os borracheiros fazem festa. Os usuários cobram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a vencedora do leilão. "Cadê os espanhóis?", pergunta João Zinher, 56 anos, caminhoneiro de Santa Catarina, parado num posto de Juquiá com a carreta avariada. Seu colega Jorge Bergmann, de 53, acredita que a empresa só vai investir depois de instalar os pedágios - estão previstas seis praças entre São Paulo e Curitiba. "O Lula lavou as mãos. Se antes do leilão já não conservava, imagine agora." O leilão já foi homologado, mas a concessionária, mesmo após assinar o contrato, tem seis meses para fazer o tapa-buracos. Até lá, os motoristas vão enfrentar o caos: além da buraqueira, o mato cresce alto no canteiro central e cobre as placas de sinalização. Há o risco de assalto e, em caso de acidentes, as cargas são saqueadas. "O mais lamentável é que esta é a época que o movimento aumenta 30% por causa das férias", diz Isiquiel Pacheco dos Santos, parado no km 498 com um pneu estourado. "A gente paga tanto imposto que devia cobrar o estrago do governo." O frentista Redimar Alves de Lana, de um posto à margem da Régis em Jacupiranga, conta que há uma semana escapou da morte. Uma carreta com cilindros de hidrogênio tombou e a carga quase o atingiu. Para escapar de uma cratera, o motorista perdeu-se num desnível de 30 centímetros na pista. A contabilista Vanilda Coelho Pavani caiu com o carro numa vala, logo após uma curva, no km 503, em Cajati. Duas rodas e três pneus foram danificados. A Polícia Rodoviária Federal havia colocado alguns cones um pouco antes. "Sorte que eu vi os cones e estava devagar." O borracheiro Paulo Antunes, no km 507, conta que seus colegas dão plantão à noite perto do buraco. "Eles improvisam o conserto ali mesmo." Dados da Polícia Rodoviária mostram que os acidentes causados por buracos aumentaram cinco vezes de outubro para cá, depois do leilão. Os policiais passam a maior parte do dia e da noite ajudando as vítimas. Na falta de reparos, sinalizam as crateras.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.