Detroit, a nova Grécia

Cidade americana parece ter tido uma governança particularmente ruim, mas foi, em grande medida, apenas uma vítima inocente das forças do mercado

PAUL KRUGMAN / THE NEW YORK TIMES,

23 de julho de 2013 | 02h12

Quando Detroit declarou falência - ou ao menos tentou -, a situação legal ficou complicada. Sei que não fui o único economista a ter uma sentimento depressivo sobre o provável impacto em nosso discurso político. Seria a Grécia mais uma vez? Evidentemente, algumas pessoas gostariam que isso acontecesse. Sendo assim vamos por essa conversa nos eixos antes que seja tarde demais

Do que estou falando? Como devem se lembrar, há alguns anos, a Grécia mergulhou numa crise fiscal. Isso foi ruim, mas poderia ter tido efeitos limitados sobre o restante do mundo; afinal, a economia grega é muito pequena (cerca de uma vez e meia a economia da região metropolitana de Detroit). Infelizmente, muitos dirigentes políticos e econômicos usaram a crise grega para sequestrar o debate, desviando do tema da criação de emprego para o da retidão fiscal.

Agora, o fato é que a Grécia era um caso especial, contendo poucas lições, se continha alguma, para a política econômica em geral - e mesmo na Grécia, os déficits orçamentários eram apenas uma peça do quebra-cabeça. No entanto, durante algum tempo, o discurso político em todo o mundo ocidental foi completamente "helenizado" - todos eram a Grécia, ou prestes a virar a Grécia. E esse enfoque intelectual equivocado causou danos imensos às perspectivas de recuperação econômica.

Agora, os esculhambadores do déficit têm um caso novo para interpretar erroneamente. Pouco importa o repetido fracasso da prevista materialização da crise fiscal americana, da forte queda nos previstos níveis de dívida americana, e da maneira como os críticos usavam muitas pesquisas - que foram desacreditadas - para justificar suas esculhambações; tratemos de nos obcecar com orçamentos municipais e obrigações das aposentadorias públicas! Ora, na verdade, não vamos.

Os problemas de Detroit serão a principal questão da crise nacional das aposentadorias públicas? Não. As aposentadorias estaduais e municipais estão de fato subfinanciadas, e especialistas do Boston College situam o déficit total em US$ 1 trilhão. Mas muitos governos estão tomando medidas para tapar o buraco. Essas medidas ainda são insuficientes. As estimativas do Boston College sugerem que as contribuições totais para aposentadorias neste ano serão cerca de US$ 25 bilhões inferiores ao que deveriam ser. Mas numa economia de US$ 16 trilhões isso não é um grande problema - e mesmo com os pressupostos mais pessimistas, como alguns mas não todos os contadores dizem que deveriam ser feitos, não seria um grande problema.

Então, Detroit terá sido exclusivamente irresponsável? De novo, não. Detroit parece ter tido uma governança particularmente ruim, mas a cidade foi, em grande medida, apenas uma vítima inocente das forças do mercado.

O quê? Forças do mercado fazem vítimas? Evidente que fazem. Afinal, os entusiastas do livre mercado adoram citar Joseph Schumpeter sobre a inevitabilidade da "destruição criativa" - mas eles e seu público invariavelmente se retratam como os destruidores criativos, não como os destruídos criativamente. Bem, imaginem só: alguém sempre acaba sendo o equivalente moderno de um produtor obsoleto, e esse poderia ser você.

Às vezes, os perdedores da transformação econômica são indivíduos cujas habilidades se tornaram dispensáveis; às vezes são companhias que atendiam a um nicho de mercado que não existe mais, e às vezes são cidades inteiras que perderam seu lugar no ecossistema econômico.

Declínios acontecem. No caso de Detroit, as coisas parecem ter sido agravadas pela disfunção política e social. Uma consequência dessa disfunção tem sido um caso grave de "espalhamento do emprego" dentro da área metropolitana, com os empregos fugindo do núcleo urbano apesar de o emprego na grande Detroit ainda estar crescendo, e enquanto outras cidades experimentavam uma espécie de renascimento de um centro urbano.

Menos de um quarto dos empregos em oferta na região metropolitana de Detroit está num raio de 16 quilômetros do distrito de negócios tradicional; na grande Pittsburgh, outra antiga gigante industrial cujos dias de glória passaram, a cifra correspondente é mais de 50%. E a vitalidade do núcleo de Pittsburgh pode explicar por que a antiga capital do aço mostra sinais de renascimento, enquanto Detroit continua afundando.

Portanto, tratemos de fazer uma discussão séria sobre como as cidades podem administrar melhor a transição quando suas fontes tradicionais de vantagem competitiva desaparecem. E tratemos também de ter uma discussão séria sobre nossas obrigações, como nação, para com nossos concidadãos que tiveram a má sorte de se encontrar vivendo e trabalhando no lugar errado na hora errada - porque, como eu disse, declínios acontecem, e algumas economias regionais acabarão por encolher.

O importante é não deixar a discussão ser sequestrada ao estilo grego. Há pessoas influentes por aí que gostariam que as pessoas acreditassem que o declínio de Detroit é basicamente uma questão de irresponsabilidade fiscal e/ou de funcionários públicos gananciosos. Não é. Em grande parte, é apenas um daquelas coisas que acontecem vez por outra numa economia em constante transformação.

 

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.