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Deuses miram Ghosn

Teriam seus executivos cerrado fileiras em defesa do querido patrão? Nada disso!

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2019 | 04h00

Afinal, qual é o deus – cristão, africano, árabe, tibetano ou inuíte – que há cinco meses persegue o mais famoso (e por muito tempo mais admirado) patrão do mundo, Carlos Ghosn, que dirigiu a Renault, a Nissan e a Mitsubishi com resultados tão fabulosos que no Japão se tornou herói e até personagem de mangás, os quadrinhos japoneses?

Vamos resumir o calvário de Carlos. No dia 19 de novembro, ao aterrissar todo feliz em Tóquio, policiais o prenderam no aeroporto e o levaram a toda pressa para a prisão mais severa do país, onde, de sua cela iluminada 24 por dia, ele podia ouvir os lamentos dos condenados que esperavam a morte.

Seu pecado: burlar o imposto de renda do Japão por cinco anos. Em dezembro, ele recebeu uma segunda acusação e uma terceira 15 dias depois. Em seguida, os japoneses deixaram que ficasse em prisão domiciliar. Carlos Ghosn respirou aliviado, mas não por muito tempo. Na quinta-feira, pouco antes das 6 da manhã, os policiais voltaram. Era a quarta acusação, sempre ligada a grana. Ele desviou, disseram os japoneses, a enorme soma de € 28 milhões, que lhe serviu para comprar um iate de luxo (põe luxo nisso) e financiar uma startup para seu filho em São Francisco.

E a Renault, que Ghosn fez uma das maiores fábricas de carros do mundo, como reagiu? Teriam seus executivos e operários cerrado fileiras em defesa do querido patrão? Nada disso! Não se viram lágrimas nem se ouviram suspiros. As más línguas, porém, se soltaram. Ghosn, um patrão admirado e detestado, administrava com mão de ferro e o medo era seu instrumento de governo.

E os chefes? O conselho de administração da Renault se reuniu na manhã de quarta para discutir a aposentadoria de Ghosn e a concessão de uma retraite-chapeau (“aposentadoria chapéu”, uma espécie de aposentadoria suplementar), que desde os anos 1980 os grandes executivos franceses, a exemplo dos americanos, obtêm quando deixam uma empresa.

A suplementação foi recusada. Um estrago! A aposentadoria suplementar seria de € 700 mil anuais até a morte de Ghosn. Dizem que a direção da empresa chegou a fornecer certos detalhes embaraçoso sobre Ghosn à Justiça de Tóquio. “A Renault virou secamente a página do ex-chefe”, titulou Le Monde.

De passagem, o episódio da aposentadoria suplementar lançou uma luz crua sobre a questão lancinante desse tipo de aposentadoria. O caso de Ghosn é especial. Ele merecia uma gratificação, pois fez da Renault uma empresa criativa, próspera. A quantia prevista, no entanto, é desproporcional e sugere quanto Ghosn desviou do fisco japonês.

O princípio da aposentadoria suplementar é imoral. Trata-se de uma flor venenosa que cresceu na árvore do capitalismo e da globalização.

Os grandes executivos dizem que a aposentadoria suplementar é reservada aos comandantes que funcionam, em função dos resultados trazidos. Defendem esse privilégio com unhas e dentes. Trata-se, porém, de uma mentira. A aposentadoria suplementar é distribuída mesmo aos que não funcionam. Por exemplo, Thierry Pilenko, que dirigiu o grupo petrolífero TechnicFMC. Sob sua administração, o TechnicMFC sofreu perdas substanciais. Outro exemplo recente: o diretor da Airbus Tom Enders vai receber € 36,8 milhões, embora a Airbus tenha tido resultados às vezes bons, às vezes medíocres, com algumas belas perdas.

Sempre que eu falava nessas coisas diziam que eu era invejoso, demagogo, quase um bolchevique. Mas hoje o presidente francês, Macron, e seu ministro das Finanças, o excelente Bruno Le Maire, que não podem ser acusados de trotskismo ou lepenismo, enojados com a exploração das “aposentadorias suplementares”, vão tentar pôr um freio na avidez dos grandes executivos. 

Se eu sou demagogo, tanto pior. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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