Devagar com a louça

Em menos de três meses, a crítica agressiva ao início de um ciclo de cortes na taxa básica de juros pelo Banco Central (BC) deu lugar a argumentos em linha com a ideia de que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderia até acelerar o ritmo de queda. Essa hipótese passou a frequentar as análises mais recentes dos departamentos de pesquisa de bancos e consultorias de mercado, embora não como a mais provável.

JOSÉ PAULO KUPFER, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2011 | 03h05

Como não parece ser esta a disposição da autoridade monetária, seria irônico, mas não descabido, imaginar que, dependendo do andar da carruagem, o BC possa agora vir a ser criticado por excessiva cautela no afrouxamento monetário. Depois da tempestade de críticas, vem a ironia.

O tempo mostrou que, na volta do parafuso, o BC não errou ao "antecipar" o início do corte nos juros. Mas, por todos os motivos, poderia errar se acelerasse agora. Não só as incertezas na economia global ou as possibilidades de contágio da economia doméstica recomendam ação ativa, mas cautelosa. Os desequilíbrios econômicos tipicamente brasileiros exigem sintonia muito fina na política econômica. Tudo sugere que o acertado é ir devagar com a louça.

O ambiente em que a economia brasileira navega, apesar de todas as incertezas, está razoavelmente circunscrito a um intervalo não muito aberto. Crescimento entre 3,5% e 4%, com uma inflação na casa dos 5,5%, eis o que se pode esperar, em cenários sem rupturas, para 2012. Não chega a ser o sonho macroeconômico de um país que almeja e precisa incluir mais gente - e, antes disso, manter incluídos os que ascenderam recentemente -, mas, sobretudo diante das circunstâncias adversas da economia global, dá para o gasto.

Tentar trazer a inflação para os 4,5% do centro da meta, no fim de 2012, como insiste em anunciar o BC, e levar a economia a crescer 5%, como passou a declarar a Fazenda, exigiria esticar a corda provavelmente além dos benefícios que o movimento poderia proporcionar. Com a peculiaridade de que cada ponta da corda teria de puxar para o lado oposto, num caso de inviabilidade física.

Nem sempre as combinações de política macroeconômica com o objetivo duplo de manter a inflação sob controle e estimular o crescimento são fadadas ao fracasso, como alguns podem imaginar. Mas, sem dúvida, os limites para essa ação combinada são estreitos e dependentes do quadro vigente. Na economia brasileira do momento, há espaço para esses movimentos combinados, mas as margens, tanto do lado monetário quanto do lado fiscal, são apertadas.

No lado monetário, esses limites são dados pela perspectiva de que a inflação não desande, mas também não despreocupe. A permanência do emprego e da massa salarial ainda em níveis altos, se bem que em ponto menor, contribui para manter pressão de demanda, principalmente no setor de serviços. Além disso, mesmo com tendência à moderação nesse segmento e de alguma redução na contaminação dos preços internos pelo vaivém das commodities internacionais, uma provável, ainda que não agressiva, desvalorização mais contínua do real pode contribuir para neutralizar o rumo baixista da trajetória dos preços.

Diante desses limites e com a certeza de que o risco de que a crise global promova turbulências no mercado interno de crédito já é mais do que uma hipótese, a fórmula da política monetária parece dispor de apenas um roteiro: a necessária moderação nos cortes da taxa Selic - até 9% ou 10% ao ano, na metade de 2012 - obrigará a uma reversão gradual e de acordo com as necessidades, das medidas macroprudenciais vigentes. Como, aliás, começou a ser feito em meados de novembro e há espaço para prosseguir.

No lado fiscal, o limite deve vir de uma dupla restrição: uma esperada redução no ritmo da arrecadação, amplificada pela intensificação nas isenções para setores específicos e pelos impactos do aumento do salário mínimo nos gastos correntes do governo. O estreitamento do canal fiscal leva as projeções para 2012 a convergirem para um superávit primário de 2,5%, abaixo da meta de 3,1%, que, diga-se, será alcançada em 2011.

A chave da política econômica em 2012 se chama investimento. Infelizmente, mais do que empurrá-lo ladeira acima, o esforço será recuperar o terreno perdido em 2011. Difícil acreditar, contudo, que o governo conseguirá, em ano eleitoral, conter seu consumo corrente, para justamente alargar o espaço do investimento, pelo menos nos níveis requeridos. O resumo da história é que a tentação de nadar na direção de um afrouxamento mais rápido no lado fiscal pode levar a economia a morrer na praia.

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