Devagar demais

Mais uma vez, o avanço da locomotiva do mundo decepcionou. A evolução da atividade econômica dos Estados Unidos no primeiro trimestre deste ano foi de apenas 1,8% em termos anuais. Os analistas esperavam alguma coisa em torno dos 2,2%. E não há o que apareça com força para mudar essa marcha.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2011 | 00h00

Um dos fatores que mais contiveram o avanço do PIB americano foi a alta dos preços dos combustíveis (mais 26%) e dos alimentos (mais 15%) no primeiro trimestre. Explica-se: nada menos que 70% do PIB dos Estados Unidos corresponde ao consumo das famílias. Como a alta dos combustíveis e dos alimentos estreitou o orçamento doméstico e derrubou o consumo, a atividade econômica ficou nesse nível aí.

Mas, então, por que a alta do petróleo e das commodities? Uma importante parcela de analistas entende que ela se deve principalmente à própria política monetária do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos). Há mais de dois anos, o Fed opera a juros zero e, além disso, colocou em andamento duas rodadas de afrouxamento quantitativo, operação de recompra de títulos privados e públicos que hoje alcança algo próximo do US$ 1,9 trilhão. Essa recompra vem injetando na economia americana volume equivalente de moeda, a mesma que é entregue em pagamento dos títulos.

Essa dinheirama apareceu do nada. Não é outra coisa senão impressão de moeda e se destina a desenroscar o crédito, o consumo e o emprego nos Estados Unidos. Mas seu efeito colateral, apontam os analistas, é a nunca vista abundância de recursos monetários em circulação no Planeta que, por sua vez, concorre para a alta dos preços do petróleo e dos alimentos.

Ainda ontem, no Rio de Janeiro, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Olivier Blanchard, avisou que ninguém deve esperar para tão cedo o enxugamento dessa enorme liquidez. Ou seja, a política monetária dos Estados Unidos continuará sendo essa aí e concorrerá para seguir puxando para cima as cotações do petróleo e dos alimentos e, portanto, para o relativamente baixo crescimento da atividade econômica e da renda no país.

O outro diagnóstico para a alta das commodities se fixa no aumento da demanda dos países emergentes, especialmente dos asiáticos. Como esse aumento da demanda deve continuar, também prevalecerá por mais tempo o fator que concorre para a contenção do consumo dos países ricos, especialmente dos Estados Unidos.

Ou seja, não importa qual a causa mais relevante para a puxada dos preços das commodities. Se ela é um freio do consumo americano, a recuperação poderá ser bem mais lenta do que a admitida hoje, por concorrer para o achatamento do poder aquisitivo das classes médias dos Estados Unidos.

Blanchard não consegue injetar otimismo. "A economia dos Estados Unidos está fraca por razões que não vão desaparecer. (...) O investimento continuará baixo, particularmente em moradia, setor que está morto e continuará morto por um tempo."

 

 

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