Joshua Lott/Reuters
Joshua Lott/Reuters

Dez anos depois, os ecos do Lehman Brothers nos nossos tempos de desconfiança

Não é difícil sugerir que a eleição do presidente Donald Trump foi um resultado direto da crise financeira

The New York Times

15 Setembro 2018 | 05h00

Esta semana é o décimo aniversário do ponto de inflexão da crise financeira: o colapso do Lehman Brothers, a maior falência da história. Para alguns, parece que foi há muito tempo. No entanto, seus efeitos ainda ecoam na maneira como vivemos hoje – nas atitudes que permeiam nossa economia, nossa cultura e nossa política. Não é difícil sugerir que a eleição do presidente Donald Trump foi um resultado direto da crise financeira.

A crise foi um momento que marcou uma divisão em nosso país. Ele rompeu um contrato social entre os plutocratas e todos os outros. Mas também quebrou um sentimento de confiança, não apenas nas instituições financeiras e no governo que as supervisionava, mas na própria ideia de especialistas e conhecedores. Os últimos 10 anos viram uma revolta aberta contra a intelligentsia.

A desconfiança levou a novos movimentos políticos: o Tea Party para aqueles que não confiavam no governo e o Occupy Wall Street para aqueles que não confiavam nas grandes empresas. Isso trouxe um afastamento entre os democratas e os republicanos de maneiras fundamentais, e as atitudes populistas em ambos os extremos do espectro encontraram os campeões na corrida presidencial de 2016 no senador Bernie Sanders e Donald Trump.

A profundidade do desespero financeiro durante a Grande Recessão e a recuperação invariavelmente lenta desencadearam um sentimento de amargura que domina o cenário político, culminando na vitória eleitoral de Trump.

“Estamos praticamente em conflito e discordância quando os tempos estão bons”, disse Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, o maior fundo de hedge do mundo com cerca de US$ 150 bilhões em ativos, e autor de um novo livro, A Template for Understanding Big Debt Crises (Um modelo para compreender grandes crises da dívida), um estudo exaustivo do pânico financeiro e das políticas que tanto os criaram como fizeram o resgate.

As crises mais profundas, ele disse, sempre levam ao populismo. E não deveria ser surpresa que uma crise leve ao conflito e, em alguns casos extremos, à guerra. "Eu estaria preocupado com a emergência do populismo", disse ele, “porque os populistas tendem a querer combater o outro lado, em vez de tentar encontrar maneiras de superar isso". Populistas de todos os lados do espectro político comum que eles são confrontos’”, disse ele.

Quando escrevi Too Big to Fail (Grande demais para falir) há quase uma década, sabia que a crise redefiniria Wall Street e a economia, mas não avaliei o quanto isso redefiniria fundamentalmente o ambiente político.

Amir Sufi, professor de economia e política pública da Faculdade de Administração Booth da Universidade de Chicago e co-autor de House of Debt, apontou a crise financeira como a fonte de redução da civilidade poucos meses após a vitória de Trump. Ele conduziu uma análise de 60 países com o co-autor de House of Debt, Atif Mian da Universidade de Princeton, e Francesco Trebbi da Universidade de British Columbia. Eles descobriram que tal resposta era “comum e previsível”, escreveu ele.

“Nossa conclusão: as crises financeiras tendem a radicalizar os eleitorados”, escreveu Sufi. “Depois de uma crise bancária, monetária ou de dívida, nossos dados indicam que a participação de centristas ou moderados em um país caiu, enquanto a proporção de radicais de esquerda ou de direita aumentou na maioria dos casos”.

Nos Estados Unidos, a crise expôs uma economia que tinha sido uma farsa – uma que a maioria dos americanos não entendeu ou apreciou. O uso da dívida havia mascarado os problemas reais sob a superfície: uma diminuição significativa na participação dos trabalhadores, a automação que levaria a empregos e o crescimento salarial estagnado.

Essas questões eram muito anteriores à crise. Mas, como Warren Buffett definiu, em frase que ficou famosa: “Você só descobre quem está nadando nu quando a onda recua".

Na verdade, nossa economia hoje está em muito melhor forma do que se poderia esperar, com o desemprego em 3,9% - menor do que era antes da crise.

Ainda assim, persistem debates sobre a forma como o governo, primeiro sob o presidente George W. Bush e depois sob Barack Obama, optou por responder à crise. Deveria ter feito algo mais diretamente para os proprietários de casas? Deveria ter exigido termos mais onerosos para as centenas de bilhões de dólares em empréstimos aos bancos e banqueiros, tais como restringir a compensação e demitir executivos para demonstrar mais responsabilidade? Alguns banqueiros deveriam ter ido para a cadeia?

Para alguns, é tentador pensar que o governo deveria ter adotado uma abordagem mais populista. Se tivesse oferecido mais ajuda diretamente ao público do que o que era percebido como socorrer os bancos, há uma suspeita de que as divisões poderiam ser menores, gerando mais união nos Estados Unidos.

Na Grã-Bretanha, o governo fez todas essas coisas politicamente populares: restringiu o pagamento dos bancos, demitiu executivos, emprestou dinheiro aos bancos em condições onerosas, restringiu gastos.

Não funcionou. A economia britânica cresceu de forma significativamente mais lenta que a nossa. E o ressentimento e a amargura daí resultantes foram muito piores do que os nossos, levando a uma manifestação do populismo ainda mais drástica: o voto inimaginável de deixar a União Europeia.

Há uma pergunta que ouço mais do que qualquer outra: “Teremos outra crise?” A resposta, claro, é sim. Mas não é uma crise de Wall Street semelhante a 2008 que me preocupa. Estou preocupado com algo muito maior.

Quando escrevi Too Big to Fail, essa frase foi usada apenas no contexto de instituições financeiras. Hoje, é usada para se referir a cidades, municípios, estados e países. Se você olhar para o acúmulo de dívidas, esse é o ponto para se ficar de olho.

A dívida impossível de se administrar é o fósforo que acende o fogo de todas as crises. Você pode ter tantos atores ruins no palco quanto quiser – banqueiros gananciosos, reguladores incompetentes, agências de classificação de risco conflituosas -, mas, a menos que haja alavancagem significativa no sistema, há pouco risco de uma crise. Nossa dívida nacional é de mais de US$ 21 trilhões e aumentou US$ 1 trilhão em apenas seis meses sob Trump, que adotou um sentimento populista e anti-establishment para a Casa Branca, mas cujas escolhas políticas favoreceram amplamente os ricos.

Esse não é o único motivo de preocupação. Se a história nos diz que as divisões políticas que temos visto desde a crise financeira eram previsíveis, então o que a história tem a dizer sobre o que vem a seguir?

Dalio apontou para o resfriamento nas relações internacionais que ocorreu após a Grande Depressão como um exemplo preocupante das divisões que podem aumentar quando o populismo promove o protecionismo. “Começamos a ter tarifas econômicas e começamos a ter essas idas e vindas”, disse ele.

Ele parou por um momento, sinalizando que não queria nem pensar no que mais tarde se manifestou. Mas ele continuou: “O que, dez anos depois, levou a Pearl Harbor”.

Existem, é claro, muitos passos entre o populismo e a guerra. Mas Dalio disse que viu semelhanças entre o ambiente global que precedeu a Segunda Guerra Mundial e o que vemos hoje.

É razão suficiente para nunca esquecer esta crise e suas lições./Tradução de Claudia Bozzo

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